Leio, escrevo e apago – versão estendida

por Tony Monti
(publicado originalmente em 09/01/2009, no Terra Magazine)

Professor é a resposta mais simples e funcional, apesar de eu não dar aulas há algum tempo. Escritor, em vez de continuar o preenchimento da ficha, seria alongar o assunto. No entanto, quando a intenção não é facilitar, é possível dizer algo menos burocrático. Leio, escrevo e apago, eu digo às vezes, sem explicar.

Não é uma história só, são tantas quantos forem os dias. Ou, como diz a amiga Fernanda sobre mim e outro amigo nosso: o Tony e o Julián ainda não acabaram a conversa que começaram, há alguns anos, no dia em que se conheceram. Continuamos conversando. Não importa, dizer é estimular o outro, seduzir e comover. Não se refere a verdades objetivas, mas a esquecer a mentira furiosa que o relógio conta na mesa escura.

Aqui, em dois ou três pedaços embaralhados (para diminuir a impressão de um começo e um fim), não se resume um texto maior nem se explica uma história mal contada. O texto é este. E todos os buracos de minhoca que ele cava no mundo.

Quase nunca leio bula de remédio. Admiro a curiosidade de quem lê, mas não se trata disso. Há um critério que escolhe os livros e um esforço específico para entender, além de todo o resto, alguma coisa sobre como se pensa em palavras. Por este motivo é que alguns livros me soam como silêncio ruim. Alguns livros não me inquietam, não adicionam nada à fúria do relógio, não contam uma mentira nova.

Escrever é muito difícil. Aprecio a coragem de quem faz isso com a disposição de quem sabe que o resultado não será bom. Eu me repito. Escrever um relatório tem os seus obstáculos, mas o que eu escrevo tem como fundamento a vontade de não relatar algo de uma qualidade diferente do que é o texto, apesar de toda a ilusão que o próprio texto e os outros textos podem criar.

Negar o texto, apagá-lo, é a crença de poder escolher em vez de vomitar as vontades no papel para aliviar as tensões. Escrever, neste sentido, é adiar uma explosão. É trabalho de selecionar os vestígios, dentro do caos do pensamento, a serem fossilizados em público. É também inverso a dizer tudo o que se pensa, o que alguns atribuem a si como vantagem inconteste. Dizer tudo é mais como jogar um caos nas mãos do outro, sem colaboração e sem compromisso. Talvez com a crença de ter honestamente entregado tudo, como se fosse possível dizer tudo.

O texto não é um jogo em que se convence a partir de regras claras e objetivos explícitos, mas uma prática lúdica um tanto incerta, de movimentos reais metros acima de uma rede de proteção real que flutua em um espaço real apoiada em nada. E o nada também é texto.

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