A felicidade dos músculos

por Tony Monti
(publicado originalmente em 06/03/2009, no Terra Magazine)

Há alguns anos, eu assistia a uma aula de Psicologia de ensino. O professor Julio Groppa Aquino coordenava uma breve discussão sobre a vantagem de envelhecer. Rapidamente, graças às intenções retóricas do professor, chegamos à obtusa (e estúpida) conclusão de que com a idade ganha-se sabedoria e é bom. O que é sabedoria? O professor olhou a sala bem de frente, com o rosto tenso, como quem vai dar uma instrução ou uma bronca, e disse cortante “não, não há vantagem nenhuma”. Assim, encerrou a aula.

Eu gostaria de ser mais novo desde que tinha quinze anos. Nesta época eu ainda jogava basquete, batia e apanhava atrás da bola. Tenho a impressão de que sinto falta desse prazer dos músculos, simples e confiável, a disputa pouco elaborada por poder. De um modo estranho, acho que entendo melhor a agressividade à medida em que sinto falta dela. A civilidade adulta me fez um bicho estranho e bem comportado, apenas discretamente violento. As regras de contenção no espaço público fazem com que as explosões sejam concentradas no espaço privado, com os mais íntimos. Às vezes ainda é possível chorar em surto no colo de alguém em quem se confia.

Para minha vontade eventual de quebrar cadeiras, tenho o futebol uma vez por semana. Ou, como a personagem do conto “O Búfalo”, de Clarice Lispector, posso procurar em alguma versão paulistana de parque de diversões/zoológico algo que se pareça um pouco mais com ódio.

Na semana passada, em um bar com música alta, muito cigarro, álcool e gente dançando em uma pista minúscula, eu tentava me sentir incluído quando fui chutado no calcanhar. O segundo chute veio um minuto depois e, quando o terceiro chegou, eu já estava integrado. A juventude, em mim, é às vezes essa vivência em barbárie, a luta explícita pela sobrevivência, por uma fêmea ou pelo espaço. No domínio desta vida pulsante, sabedoria é um nome que esconde a derrota pacífica por cansaço.

“Foi sem querer que você chutou três vezes o meu calcanhar, certo?” Ele desconversou embora mantivesse a postura de prontidão para o ataque. Minutos depois, um amigo dele deu um encontrão de ombros comigo para que eu não tivesse dúvida de que eu era o inimigo. Tive raiva. Por fim, saí rindo. Foi bom como fazer um gol de bico.

 

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