Placebo

por Abilio Godoy.

Quando vim morar em Narcisópolis, há mais de quinze anos, eu me achava o cara mais esperto do mundo. Idiotia comum a adolescentes de várias idades que conheci e conheço, estava convencido de que eu era alguma espécie de gênio e me indignava com a dificuldade que as pessoas tinham para enxergar as verdades tão cristalinas que aparentemente só eu reconhecia nas coisas.

Estudando num colégio de rico do Paraíso, eu me gabava das notas altas que conseguia sem me aplicar e tirava sarro dos orientais que ocupavam as primeiras cadeiras e passavam o fim de semana estudando, enquanto eu, supondo-me um novo Álvares de Azevedo, bebia vinho San Tomé, fumava, e escrevia poemas horríveis.

Foi mais ou menos naquela época, eu me lembro, que estourou o primeiro longa do que viria a ser a trilogia Matrix. E é lógico que eu me identificava, como aliás todo mundo que assistiu ao filme ao redor da Narcigaia, com o heroico protagonista que faz a escolha corajosa – no que viria a se tornar uma das imagens mais surradas da cultura pop – pela pílula vermelha e a realidade inóspita que se opõe à ilusão alienada dos partidários da confortável pílula azul.

Acho que só comecei a mudar, e de modo lento, ao longo da graduação. Embora eu ainda quisesse – como tantos narcipentelhos da FFLCH – falar demais e aparecer nas aulas, aos poucos fui percebendo que, embora eu nadasse de costas nas piscininhas intelectuais dos quintais que conhecia, havia lá fora todo um oceano disposto a implodir minha cabeça antes de permitir que meus pés tocassem seu fundo. Não, não eram os outros que não enxergavam minhas verdades cristalinas; era eu que era míope demais para conseguir ver além delas. Tolo demais para aceitar a muitas vezes frustrante complexidade das coisas. Eu era um covarde falastrão. E azul era a cor da minha pílula.

Foi apenas depois de passar os quatro anos do mestrado debruçado sobre um único assunto e um único texto para chegar ao final com uma dissertação pouco mais do que medíocre que comecei a estimar melhor a dimensão real da minha burrice e da minha insignificância. Então me lembrei daqueles orientais da primeira fileira e precisei admitir o quanto eram mais espertos do que eu, porque, independente de qualquer mito romântico e burguês acerca do talento individual, eles estavam dispostos à humildade de aliar disciplina e trabalho duro à inteligência óbvia de todo ser humano, para cumprirem com folga seus objetivos e enfrentarem desafios cada vez maiores.

De lá para cá, sinto que tive cada vez menos convicção para dizer as coisas e cada vez mais medo de falar em público. De lá para cá, embora a emissão expressa, urgente e incessante de opiniões pareça ter se tornado uma das marcas da minha e, sobretudo da próxima, geração, só consigo publicar textos como este com muita relutância e sacrifício. Porque sei que semana que vem vou achar uma merda tudo o que escrevi aqui.

No entanto, se me arrisco a dizer algo sobre Narcisópolis é que a impressão que tenho dela hoje é contrária a de quando cheguei aqui adolescente. Penso que a cidade está repleta de gente esperta, brilhante, inovadora. Gente com potencial enorme para fazer coisas extraordinárias e até melhorar eventualmente a Narcisolândia e toda a Narcigaia. O que me parece que nos falta, contudo, muitas vezes é nos sentarmos um pouco mais na primeira fileira e passarmos o final de semana estudando. O que nos falta é entendermos que não existe poção mágica e a pílula vermelha não passa de um placebo que apenas nos remete à mesa de trabalho, onde com muitos anos de persistência e um pouco de sorte, talvez encontremos pelo menos uma parte da iluminação que procuramos.

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Um pensamento sobre “Placebo

  1. Gostei e, por razões óbvias, identifiquei-me muito com o texto. Gostei dos neonarcisologismos. Só me pareceu incorreto dizer que a crença no “talento individual” (havê-lo-ia “coletivo”?) seja um “mito romântico e burguês”. Romantico, sim; burguês, não. A burguesia, precisamente por não contar com privilégios de nascimento (e talento não seria senão um acidente genético), buscava o sucesso por meio do esforço individual, dedicando-se a ofícios desprezados pela nobreza. Um abraço ao autor.

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