De Choisy: abade, viajante e ‘crossdresser’

por Tiago Novaes

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Em 3 de março de 1685, o abade francês François Timoleón de Choisy embarcou no navio Oiseau que partia do porto de Brest rumo à Tailândia, o então reinado de Sião, em uma delegação capitaneada pelo embaixador Alexandre de Chaumont. O navio levava jesuítas, físicos, matemáticos e especialistas em budismo e mandarim, além de enviados do reino do Sião e até mesmo um espia cujo propósito jamais se revelou e que foi logo desmascarado e enviado de volta à terra em um bote. A missão da comitiva, planejada ao longo de meses sob o escrutínio atento de Luís XIV, era nada menos do que converter o rei de Sião ao cristianismo e garantir uma influência dominante no comércio com o sudeste asiático, ameaçada pelos holandeses e ingleses.

O abade de Choisy era uma personalidade influente. Filho de um rico comerciante muito próximo a Luís XIV, foi o primeiro a beijar a sandália do novo papa Inocêncio XIX. Talvez por isso a Igreja não houvesse manifestado objeções quando se descobriu por seus escritos que, ao longo de toda a sua infância e juventude, Choisy tivesse o hábito de vestir-se de mulher. Foi a mãe, segundo ele mesmo, que lhe infundiu o gosto pelo panier, pelas anáguas adornadas, saias de musseline, espartilho e perucas de prata. Mas a despeito do que se poderia imaginar, a de Choisy apeteciam as mulheres. Quando jovem, costumava seduzir meninas inocentes fazendo-se passar por uma aristocrata mais velha que lhes ensinaria os segredos para agradar os homens na intimidade. A pubescência dos conselhos, confiada aos ouvidos sensíveis das virgens, abria caminho para as mãos suaves do sedutor, um beijo nas maçãs pálidas. Quando descobriam que a senhora era um homem, soía ser tarde demais.

Consta que após uma séria enfermidade, de Choisy abandonou o hábito herdado pela mãe e vestiu um outro, o respeitável e sacrossanto hábito do monge. De modo que, aos quarenta e dois anos e a bordo do Oiseau, já não se distraía com tais travessuras. Ao invés disso, dedicava-se a manter um diário de viagem onde relatava os pequenos, às vezes ínfimos acontecimentos durante a longa travessia marítima, diário que foi editado como Journal du voyage de Siam fait en 1685 et 1686, no qual descreve as naus sem tripulação vagando à distância no oceano, um arco-íris noturno, a crise de escorbuto até a chegada ao Cabo, os fogos de São Erasmo, uma eclipse lunar que deixou pasmos os siameses à bordo, o espetáculo secreto de um raio atingindo as águas, um amigo que agonizou lentamente, acometido por uma doença misteriosa.

Além destes episódios e de barrocos pormenores náuticos, de Choisy tece considerações sobre seus aprendizados. Na época, o português era o idioma ocidental mais falado na Tailândia, e por isso, distraía-se entre leituras de Euclides e os aprendizados do idioma. Uma leitura não deve ser feita de palavra em palavra, ele diz, mas de frase a frase. Apenas assim se poderá manter a delicadeza das línguas.

Aportando em Sião, dirigem-se à capital do reino, que não era Bangkok, mas Ayutthaya. A Corte recebe-os com honrarias. Impressionaram-se com os nativos, que andavam quase nus e descalços, e ainda assim cobertos de joias de ouro. Com ironia, os europeus enxergaram o hábito dos siameses de tomarem três banhos por dia nas águas do rio, sem saber que foi justamente por isso que não sofreram das epidemias malignas dos europeus. Os asseados tailandeses não se lavavam nas águas estanques de banhos coletivos como os europeus o faziam, e tampouco bebiam da água que usavam para se lavar. O nativos viviam em arejadas casas suspensas de bambu, a alguns metros do solo, tão fáceis de construir quanto de transportar (de fato, o Monsenhor de La Loubère conta como três casas foram levadas para longe da vista do palácio real em menos de uma hora, e trezentas se ergueram em dois dias em Ayutthaya).

Ao final da jornada, de Choisy sentia-se cansado, envelhecido. O plano de catequizar o rei malograra, mais preocupados estavam os siameses de impedir as invasões de ingleses e holandeses. Um grego muito astuto e influente na Corte, Constantine Phaulkon, pediu que Choisy advogasse em favor da intervenção de um exército francês, para conter as ameaças estrangeiras. Com palavras gentis, o abade recusou. Mesmo assim, alguns meses depois, o rei acabou aceitando o conselho. Aportaram em Sião milhares de homens viris e equipados, muito superiores aos exércitos do rei Petraja. Os franceses, que supostamente deveriam socorrer os tailandeses, acabaram vistos como uma ameaça, e foram expulsos. Desde então e até hoje, o termo que utilizam para francês, farangset, é ampliado para todos os estrangeiros invasores. Todos os vinte e três milhões de turistas que hoje chegam à Tailândia todos os anos são Farangs.

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