Não vai ter copa – considerações após o fim do espetáculo

por Tony Monti

Preâmbulo carnavalesco

Quando cheguei em casa, escutava helicópteros e via pela janela as lanternas iluminando o chão e procurando gente. Eu voltava da rua, aqui no Centro. Era a dispersão de uma das manifestações contra a copa, uma semana antes do carnaval. Na Praça da República, a polícia prendeu mais de duzentas pessoas, uma parcela grande dos mil e poucos manifestantes. Para não apanhar, ser preso ou levar gás na cara, o pessoal da manifestação corria pelas ruas perto da praça. A duas quadras dali, partindo da esquina da São João com a Ipiranga, um bloco carnavalesco brincava e dançava ao som de músicas do Caetano Veloso. Fugidos da polícia, manifestantes encontraram o bloco em ação. O carnaval transbordava em seu avesso.

O refrão

Quando escutei pela primeira vez o refrão “não vai ter copa”, eu o considerei apenas bobo. Evidentemente, haveria copa. Era um refrão derrotado de antemão. Acho hoje que essa minha primeira interpretação era simplista, como se eu respondesse ao dicionário, sem entender a linguagem na prática e na rua.

Aos poucos fui mudando de ideia. Como a copa centralizaria as atenções de muita gente, “contra a copa” também poderia aglutinar pessoas e forças políticas. Os refrãos, como qualquer texto, têm sempre mais que apenas uma superfície. O que me fugia, a princípio, eram o potencial aglutinador e a simbologia de recusar o que se promete como solução única, grandiosa e coletiva.

Contestadores melancólicos

No fim das contas, as manifestações foram pequenas e geraram pouco debate. Uns me diziam que a contestação deveria ter sido feita antes, quando da candidatura do Brasil a sede da copa. Argumento paralisante. Não fizemos na hora certa, portanto não fazemos e não faremos. Aguardar sempre a situação exata para se movimentar deve ter nome na terminologia psiquiátrica. A consciência construída, a interpretação das situações, é histórica, muda com o tempo, e as decisões são tomadas nesse chão, seja a decisão do que fazer ou de não fazer nada. Mesmo que não tivesse havido junho de 2013, e houve, preferiria não me agarrar à melancolia de certos contestadores teóricos da ordem.

Legados e delegados

Por um tempo, o governo federal, que tinha planejado o espetáculo da copa como uma grandiosa consagração, foi cobrado por aliar-se a homens de passado duvidoso, por privatizar infinitas decisões públicas, por destinar dinheiro público a interesses privados. Justo. O governo se defendia, argumentando com os legados materiais, os benefícios no espaço público etc. Depois de algum tempo, quando os legados começaram a ser menos defensáveis, alguém disse que o legado era a própria copa. Entendo. Um evento em si, por ele mesmo.

Enquanto isso, a PM fazia o trabalho sujo na rua; e a imprensa, no sentido de dar coerência discursiva contra a insatisfação de alguns que ainda iam à rua e de muitos outros que ficavam quietos em casa. O mundo, enfim, tantas vezes, é dos eufóricos, não dos calados.

O futebol ele-mesmo

Não é especial da copa do mundo que os discursos que acompanham o futebol sejam machistas, violentos e infantiloides. Não é possível separar a bola que rola, o gramado, os vinte e dois hussardos e o juiz, da ladainha besta que o define. Em certa medida, tanta gente gosta de futebol porque tanta gente gosta de futebol. É o gosto pelo grandioso e pelo aglutinador, algo que a religião e a propaganda entenderam há bastante tempo. Poderia ser luta greco-romana, briga de galos ou literatura. Talvez não literatura. O que comove as pessoas na copa é muito pouco o que se passa em campo, mas o que disso decorre: o amálgama das massas, os nacionalismos evidentemente xenófobos, os raciocínios simplistas, a possibilidade de ser violento, a atribuição da culpa a alguém.

O transbordamento ritual

Se somos seres potencialmente muito violentos (nós sabemos disso, certo?), é razoável que construamos cerimônias bastante controladas para destruir coisas sem nos machucarmos como indivíduos ou como sociedade. Assim me parece o futebol, o torcer para uma equipe, em que se é permitido odiar o adversário, reduzindo-o a uma subumanidade indefensável em outros ambientes. É uma ilusão positiva. Um momento para sermos um outro, uma máscara. Iludir, aliás, é etimologicamente irmã de jogo. Iludir, in-dudere, dentro do ludo, do jogo, do ritual.

No entanto, dos paredões do estádio escorrem umas sobras. O ritual transborda, fazendo com que, por inversão, a ilusão se torne mais real que a realidade, fazendo com que o argentino seja um imbecil, com que se possa gritar “chupa colombiano”, sem problemas, sem consequências, na rua. Em grande medida, eu e o Neymar somos mais diferentes do que o Navas (Costa Rica) e o Park, qualquer um deles (Coréia do Sul), jogadores de futebol, ricos, cosmopolitas etc. Nacionalismos…

O pensamento mágico

Vai, Brasil, e o Brasil só às vezes ia. E no final não foi, mas isso é acaso. Poderia ter ido. A identidade em torno de torcer, de esperar um feito mágico, pelo qual não trabalhamos, é uma identidade frágil, que só tem validade até o fim do espetáculo. Não cria uma noção coletiva a partir do ritual da copa, a não ser o que transborda, uns restolhos de ódio por um país, um comentário machista compartilhado, coisa assim. Talvez algo me escape, mas tudo não me parece diferente de a PM ter que separar Palmeirenses e Corintianos na chegada e na saída de um estádio para que eles não se matem. E eles se matam. Na copa, procedimento higienizado pelos preços e pela lógica do espetáculo global.

O grandioso e o sagrado

A escolha pela copa, pelo evento enorme é, em si, perigosa. Um legado negativo bem discreto, me parece, é a própria legitimação dessa escolha. Optou-se pelo evento enorme, descolado do cotidiano. Optou-se por cravar na história um enorme monumento em 2014, no Brasil, em vez de destinar esforços para transformar, como possível, o dia a dia da gente. O Caio Fernando Abreu disse uma vez, em um prefácio a um livro do John Fante, que o John Fante sabia que o ser humano não quer mais que não se sentir tão sozinho e esquecer que vai morrer. É difícil medir todas as consequências antes do evento, e ainda é difícil medir as consequências agora, mas minha impressão é de que o que interessa é a vida dos pequenos eventos, e de que há outros modos para se sentir acompanhado.

Suspensão do cotidiano

Os rituais grandiosos produzem, de fato, um sentido de acolhimento, de fazer parte (na medida em que todos fazem parte). É religioso. Mas a ideia do gigante e espetacular é completamente descolada do cotidiano. É preciso parar tudo para que aquilo exista, e que aquilo acabe para que o mundo volte a rodar. Não é que não houve legado. É que não há, neste sentido, legado possível. O monumental é separado do corriqueiro, como necessidade de ser espetaculoso.

Como refrão, se ele provocar alguma torção no modo como a gente pensa o mundo e o espaço público, acho que #naovaitercopa valia tanto na época da escolha da sede da copa, como no começo deste ano, e vale ainda agora que a gente já não tem mais feriado para ver o Brasil jogar.

#naovaitercopa

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s