A invasão

por Orlando M. Ferreira 

Adoro filmes ruins porque acho que eles nos ensinam mais sobre as coisas do que qualquer filme cabeça pode nos ensinar sobre cinema. Eis que zapeando a TV a cabo um dia desses topei com um que prometia: “Invasão do mundo – A batalha de Los Angeles”. Etês chegam nos EUA detonando tudo com uma tecnologia militar que deixa a dos ianques no chinelo. No melhor estilo “Guerra dos mundos”, inaugurado por H.G. Wells no despontar do século XX, os homens formiga lançam raios da morte e voam em naves indestrutíveis, transformando a capital do cinema norte-americano num cenário digno de Faluja, Gaza ou qualquer outro lugar para onde as polícias do mundo estejam apontando os raios lasers de seu arsenal superinteligente.

Invasao do Mundo - A Batalha de Los Angeles 9

À maneira de outros clássicos do gênero, como “Independence Day” e a própria refilmagem recente de “Guerra dos mundos”, em “A batalha de Los Angeles” os civis são massacrados pelos aliens numa situação de guerra total. O exército dos EUA está perdido, derrotado e humilhado pela tecnologia superior dos invasores. São obrigados a assumir táticas desesperadas, como a guerrilha, a sabotagem e o uso de artefatos explosivos improvisados, que não os diferenciariam dos grupos insurgentes que desafiam seu poder pelo mundo afora. Poderiam até ser acusados pelos etês, se eles tivessem boca para isso, de serem um terrível grupo terrorista, tornando até justo seu extermínio. Mas o filme não chega a tanto, claro, porque como qualquer polícia do mundo, um bom etê em pé de guerra não precisa falar nada quando o assunto é arrombar a porta de um planeta.

Curiosa inversão realizada por Hollywood, na qual os ianques se transformam, ao enfrentarem os aliens no cinema, nos insurgentes que eles combatem nas guerras reais. Esse paradoxo dadaísta poderia ser transposto para outros contextos, dando origem a uma fauna cinematográfica interessantíssima. Despontariam títulos como:

Jerusalém sitiada. Produção israelo-americana na qual Jerusalém é vitimada por um exército venusiano que toma as terras dos judeus e os obriga a viver em campos de refugiados, assolados por bombardeios punitivos. A resistência judaica utiliza foguetes e bombas artesanais, risíveis diante das armas avançadíssimas dos etês.

Stalag Europa – campo de concentração. O continente europeu é presa de uma horda de vulcanianos armados até os dentes que expulsa parte da sua população para a África, enquanto os europeus que permanecem são escurecidos por um vírus alienígena e obrigados a realizar trabalhos aviltantes, vivendo para sempre em campos de triagem cercados por arame farpado eletrificado.

Terror em SP – o retorno dos marcianos. Nesta superprodução do cinema nacional, a megalópole é invadida por extraterrestres com capacetes brancos, coturnos e escudos transparentes que realizam incursões noturnas nos bairros ricos da cidade, lançando gases químicos e matando a esmo para punição exemplar. A classe média abonada organiza a resistência subterrânea aos marcianos e armada de paus, pedras e coquetéis molotov, incendeia discos voadores.

 

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