Jesus não tem dentes no país dos banguelas

por Tony Monti

Desde junho de 2013, a polícia só tem aumentado a violência no enfrentamento às manifestações públicas. O Estado tem encerrado o diálogo antes de se entender como interlocutor. A polícia sobrepõe-se ao ordenamento jurídico, toma o lugar da Lei, o que equivale a suprimir a possibilidade de ali a Lei existir.

Nos anos 80, pouco depois do fim do Regime Militar, havia uma necessidade de negar o passado então recente. De certo modo, construiu-se um bloqueio, uma negação radical de qualquer ideia associada à polícia. Na época, cantavam, por exemplo, os Titãs sobre uma polícia que não era o que prometia ser. A música falava de uma corporação um pouco sem rosto, em referência indireta, “dizem que…”, uma aparição violenta mas fantasmática.

É curioso como, quase trinta anos depois, a mesma banda Titãs grava uma canção − “Fardado” – e trata a polícia de maneira mais direta. Em vez de falar enviezadamente de um organismo, dirige-se diretamente ao policial como um interlocutor e um igual – “você também é explorado”.

A transformação é significativa. Houve um momento em que a polícia era o centro de um trauma histórico, e por isso esse significante foi provisoriamente bloqueado. Agora, é preciso modalizar, equacionar a existência da polícia, essa que ficou escondida, em certa medida, do enfrentamento simbólico por algum tempo.

Parece haver uma tomada de consciência de que é preciso lidar com a questão, em vez de evitá-la como em um trauma (sofrendo com o sintomático aparecimento de chacinas e insubordinação à Lei).

No entanto, ao que parece, a difícil tarefa não é apenas a de enfrentar a insubordinação da polícia às instituições e aos acordos públicos, mas a dificuldade de todos os diversos agentes sociais do espaço público de permanecerem em acordo com os regulamentos.

Se a truculência policial é expressão de uma falta de diálogo, especificamente quando o gestor público evita a palavra, pela força, ela é também, em um senso mais amplo, a falta da palavra da Lei, o hábito de o agente do Estado assumir o papel de agente de sua vontade, sem a intermediação da palavra escrita – Lei – supostamente compartilhada.

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