Anistiar o passado

por Orlando M. Ferreira

O Brasil é um país sem memória, dizem. Não concordo. Como todo chavão, este serve para poupar a atividade do pensamento, para impor a sua ausência ou para disfarçar uma lacuna na interpretação do real.

A não memória é o caos, a loucura ou a morte.* Não é possível a identidade sem a memória. Mas a desmemória brasileira referida no chavão seria de outro gênero, um tipo de esquecimento malemolente, por desleixo ou ignorância, como se não atribuíssemos ao passado a importância que lhe é devida. Como dizia uma frase publicitária que ouvi certa vez,

“é preciso anistiar o passado e construir um futuro melhor”.

Memória há, portanto. Resta saber o porquê de ela cobrar uma anistia. Por que ela assusta a ponto de se esconder por aí como uma criminosa? Talvez essa anistia seja uma espécie de exorcismo, no que caberia melhor dizer que “é preciso exorcizar o passado”, para nos livrarmos de sua capacidade desestruturadora, para reprimirmos conteúdos traumáticos.

A obrigação então é falar, tratar de tudo o que aconteceu, até que a verborragia seja capaz, pela magia da palavra e das imagens, de afastar o que nos impressiona e amedronta. Como as torres gêmeas em chamas, atingidas pelos aviões foram exibidas à exaustão até que perdessem toda capacidade de causar assombro, o ato de falar e ver a coisa traumática participa de um rito para o apaziguamento dos demônios da memória. Daí a necessidade de um sacrifício, de uma guerra “ao terror” que vingasse com sangue o 11 de setembro. Movimento de exorcismo e expiação sacrificial que revela um triste padrão no trato contemporâneo das memórias políticas.

Partindo daí é possível sustentar que, ao contrário do que reza o chavão, há no Brasil um transbordamento da memória, um excesso de evocação do passado que é diretamente proporcional ao trauma causado pelos eventos. “Anistiar o passado” seria portanto forjar consensos pacificadores – mesmo que à bala, haja vista o grande projeto em curso de pacificação nacional –, unanimidades, pactos que nos permitam (forcem) a continuar, apesar de tudo, rumo à ordem e ao progresso.

Isso se evidencia no modo como vem sendo feita a elaboração das memórias de junho de 2013, sobretudo pela mídia. O fato é relido como momento de grande mobilização patriótica, movimento puro, inocente, pacífico, no qual os brasileiros teriam lançado um grito moralizador contra os desmandos da “política corrupta”. Contudo, este momento de efusão nacional teria sido desvirtuado por vândalos e baderneiros que acabaram transformando a festa das ruas numa orgia de fogo e depredações. A imagem nacionalista idealizada pela mídia, de um povo unido pela moral, mascara o que inquietava as elites desde o começo, um movimento popular autêntico que tinha um objetivo específico, abaixar o preço das passagens, e que foi vitorioso, colocando de joelhos o empresariado do transporte urbano. Mascara também o fato de que desde o princípio a própria mídia se posicionou radicalmente contra o povo nas ruas, acusando já naquele momento os ativistas de serem vândalos e baderneiros.**

É evidente que esta interpretação não é neutra, mas tem como objetivo incidir sobre os acontecimentos futuros. A presença nas ruas é demonizada para que jamais se repita, para que nunca mais as classes dominantes e seus governantes se sintam acuados. O problema é que este ritual cobra sacrifícios, cerimônias públicas de vingança e apaziguamento que reiteram a presença da ordem contra a baderna. A demanda por trás desta tentativa de construção de uma memória oficial (conservadora) de junho é que o mal precisa ser cortado pela raiz. Sabemos quem são suas primeiras vítimas.

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* A desmemória amnésica não é propriamente a ausência da memória, mas a memória sublimada no desejo de se reencontrar: “o que sou, sei que me tornei de algum modo, mas não sei como; minha memória está perdida e a desejo ardentemente”.

** Neste parágrafo devo ao prof. Pablo Ortellado a crítica à elaboração das memórias de junho.

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