Bem-vindo a Narcisópolis

spturis_strip_16128_0_full

por Abilio Godoy

Muito embora Luiz Felipe Mané – conhecido colunista da Folha de Narcisópolis – tivesse escrito naquela semana que pegar mulher era o objetivo de toda discussão politico-filosófica, a conversa amargurada que eu tinha com minha amiga, numa mesa de bar da rua Augusta, passava muito longe de qualquer erotismo. E apesar de compartilharmos opiniões que se poderiam dizer de esquerda – indício infalível, segundo o tal narcisófilo, de que o diálogo deveria tomar rumos afrodisíacos – o sentimento que experimentávamos era antes a exasperação por uma discordância sistemática.

Minha amiga via as manifestações de junho como uma vitória política das ruas; enquanto eu opinava que, embora houvesse ocorrido a vitória do MPL, tinha me decepcionado e me assustado a onda reacionária que mais tarde engoliu e quase anulou a força de expressão original do movimento, tirando do armário um monte de gente conservadora e balançando mais para direita do que para esquerda os pilares do status quo. Minha amiga me acusava de arrogância; eu a taxava de superficialidade. Ela dizia que faltava atitude no mundo; eu argumentava que faltava reflexão. Ela propunha que eu saísse mais às ruas e conversasse mais com as pessoas; eu sugeria que, vez ou outra, ela ficasse em casa estudando. E assim discordamos naquela tarde até que, bêbados demais, acabamos desistindo da possibilidade de uma síntese.

Faz tempo que não vejo a minha amiga. Hoje, voltando do interior a Narcisópolis, eu me deparei com um dos pórticos que instalaram durante a Copa do Mundo nas entradas da cidade. “Bem-vindo a Narcisópolis: viva tudo isso!”, diz a placa que – talvez porque a ambiguidade publicitária entre o “viva” imperativo e o “viva” comemorativo me lembre o olhar da minha amiga  – por algum motivo me fez recordar a nossa discussão. Tive então vontade de voltar àquela tarde para dizer a ela que, a despeito de qualquer elogio que se possa fazer ao impulso e ao improviso, eu prefiro viver com um plano, ainda que provisório, e que se é, sim, preciso sair à rua, também é preciso pensar um bocado.

Como será possível libertar a sociedade das injustiças sem sacrificar nossa frágil democracia? Existirá alguma maneira de disputar eleições ao mesmo tempo com a proposta de reformas estruturais e com possibilidades reais de vitória? Haverá um modo de combater a corrupção de dentro de um sistema corrupto? Ou não? Ou ficaremos para sempre reféns dos milionários e bilionários, das alianças políticas, da governabilidade, da alienação generalizada, do fluxo internacional do capital, da bancada evangélica, da bancada ruralista, da Copa do Mundo? Ou teremos que sair às ruas para apanhar da polícia cada vez que quisermos mudar uma vírgula do sistema e perder quase sempre os poucos centímetros que cada uma de nossas trincheiras reclama?

Queria dizer à minha amiga que essas perguntas não são retóricas e que estou longe de encontrar repostas. Queria dizer também que tem muita gente mais sábia do que eu discutindo por aí essas coisas. E que, se em meio às nossas idas à rua não dermos de vez em quando uma parada na biblioteca, corremos o risco de ser só estatística na multidão, de encarnarmos a esquerda festiva do Mané, de aplaudirmos, com um “viva tudo isso!”, o espetáculo desastroso da nossa humilhação cotidiana.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s