O hipopótamo, os Elementos e os restaurantes vegetarianos

por Tony Monti

Não tenho nenhum argumento contra salvar o lobo vermelho tanto quanto cuidar da gente. Mas existe o mundo real, e talvez não tenhamos tempo para tudo.

Sinto-me profundamente envolvido com o que costumamos chamar de natureza. O cheiro de mato me move. Os animais mais diversos, que tanto desconheço e com que por vezes tanto me identifico, do cachorro à barata, do sapo ao orangotango, os animais me encantam. A mágica é parecida com a de quando sento num degrau para ver o mundo passar, as pessoas e as cidades, ou quando caminho na praia ladeado por aquele mundo de água e sinto a areia mexer quando eu piso descalço.

Não tenho nenhuma reclamação séria contra vacas, gafanhotos ou agrião orgânico. Gosto do mundo. Mas tenho um sentimento especial em favor de cuidar das pessoas. E argumento nenhum. Minha posição a favor do humano talvez seja da ordem do vício. Ou da ordem da crença. Se me fosse pedido escolher, em abstrato, se ecologia ou oportunidades iguais a todos os homens, eu tenho uma resposta. Talvez não tenhamos tempo para tudo. Sou finito, embora tente esquecer disso diariamente. Vivo em dias finitos, semanas finitas, com recursos finitos, e principalmente em uma vida finita.

Alguém pode argumentar sobre a sinceridade, dizer que alguém que defenda publicamente determinada posição política pode ter vantagens, no âmbito particular, com as ideias que defende. Isso não importa. A sinceridade não me parece, neste caso, uma questão importante. Talvez, na verdade, em um nível íntimo, às vezes pouco consciente, que seja, todas as pessoas façam tudo apenas para si mesmas. O que me interessa, no entanto, é o modo como esse egoísmo se reveste. Há quem revista egoísmo com egoísmo. Há quem revista egoísmo com cuidado, sorrisos e espírito coletivo. Não tenho como vasculhar as intenções das pessoas. A realidade é mais exterior.

O que eu quero dizer é que não tenho nada contra restaurantes e que gosto também dos restaurantes vegetarianos. Mas uma certa “natureza”, como abstração, encobre de comida vegana, partidos verdes e pet shops caros o interesse pela manutenção da ordem desigual entre os homens. É como se defender os animais fosse ir a um restaurante vegetariano que utiliza mão-de-obra escrava na cozinha.

Além disso, ainda que os hipopótamos e os pés de alface, a política extrapola o egoísmo inseparável dos limites sensoriais do corpo. A política obedece à lógica dos grandes elementos. Na situação em que a defesa da natureza vira bandeira política, torna-se causa central para a gestão do espaço entre os homens, a natureza é uma abstração com um sentido prático diferente daquele que é anunciado. Se defender a natureza for defender o espaço social, ok. Mas me incomoda ver os interesses do dinheiro se associarem a ecologistas honestos para tirarem alguma vantagem no mundo como é realmente.

Não é apenas de incompetência gerencial e de má-sorte com os deuses e com os Elementos que ora um grande reservatório d´água seca.

Perigosamente, o prazer do ecológico beira o misticismo corpóreo. É bom, sem dúvida, o cheiro da rua molhada que sobe do chão depois a chuva. Este potente prazer concreto, no entanto, pode ser redirecionado, a fim de mover os desejos dos indivíduos, na propaganda de comida ou para evitar tratar de relações mais amplas como são as relações políticas. Essa possibilidade de mover muitas pessoas ao mesmo tempo em nome de um Outro enorme (a natureza, as nações, os textos sagrados) pode ser muito conveniente a relações totalitárias.

A questão não é argumentar contra os animais de estimação nem contra as relações pessoais e íntimas. Mas política, vale lembrar, diz respeito a um elemento grande − a cidade, a sociedade − e tem que transcender o imediato, o corpóreo, o particular. O espaço público, neste sentido específico, não é uma continuação nem uma expansão do corpo, da casa e dos pequenos prazeres cotidianos. É em outro conjunto de parâmetros que os interesses se organizam na política.

[com carinho e admiração,
e sem ironia,
a meus amigos que utilizam seu tempo na proteção de seres indefesos não humanos]

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