Por que não vou mais à FLIP

por Abilio Godoy

Não é raro que me perguntem. Afinal, argumentam, eu devia ir buscar novos contatos, conhecer os colegas, discutir literatura.

Bobagem.

Nas duas vezes em que fui, aprendi que em certos aspectos a FLIP não é diferente do carnaval de Salvador e, como todo espetáculo para multidões, segrega seus frequentadores entre uma nobreza e uma plebe: a primeira composta por escritores convidados, debatedores, jornalistas, editores, celebridades, patrocinadores, papagaios de pirata e todo tipo de VIPs portadores de crachás; a segunda conglomerando o público ordinário, os escritores wannabes, os artistas de rua, os trabalhadores locais e os festeiros aleatórios.

Na primeira vez fui convocado pelo finado JB para uma reportagem sobre novos autores. Empossado assim na nobreza provisória, posei constrangido para fotos no centro histórico enquanto a plebe transeunte parava para perguntar aos repórteres quem eram aqueles famosos. No pacote, fui convidado para as festas dos bacanas, onde a música era boa e a comida e a bebida eram chiques e de graça.

Um ano depois, voltei a Paraty com um amigo e uma namorada. Meu amigo e eu gostávamos de beber na rua e olhar o movimento. À minha namorada incomodava não estar no centro das atividades. Uma noite meu amigo se sentou numa mesa nobre, mas se esqueceu de incluir meu nome e o dela na lista da festa dos bacanas. Eu não queria nem tentar, mas um jornalista carioca me deu seu telefone e garantiu que qualquer coisa era só ligar para ele. Quando o segurança truculento escorraçou a mim e à menina da fila, meu amigo não pôde fazer nada e o jornalista carioca ignorou, de lá de dentro, meu aceno mendicante. Tentei telefonar, mas ele não atendeu.

Depois disso, nunca mais voltei à FLIP. E não foi só por essa humilhaçãozinha, por essa afrontinha à minha vaidadezinha desimportante. Não voltei mais à FLIP pelo mesmo motivo por que não vou às baladas da Vila Olímpia, em Narcisópolis. Porque, ainda que não possa escapar à classe a que pertenço, prefiro circular por espaços onde as fronteiras são um pouco mais difusas e o público, um pouco menos segregado. Prefiro andar onde ninguém tem crachá, camarote ou sobrenome, embora saiba bem que o dinheiro sempre atravessa tudo e que eu não poderia entrar em muitos destes lugares se esquecesse em casa o meu cartão do banco.

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