Alguém para conversar sobre livros

IMG_8518 copy

por Tiago Novaes

Basta de começo meio fim. Tudo é meio. Quem ainda liga para a lógica? Viva os efeitos de verdade. Para os que buscam densidade, vide MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 20xx.

Quando Freud fala de pulsões parciais, está se referindo ao fato de que nenhum de nós neuróticos vai querer uma única coisa durante toda a vida. Não há um rei que sacie todas as nossas esperanças. Não há uma mãe que ame tanto o seu filho único. O amor não se fixa a um único objeto. O amor é um desdobramento infinito. O amor é uma narrativa.

Estou viajando já tem algum tempo. SP é para quem pode, alguém disse uma vez. E em algum momento nesta minha longa viagem eu já havia suprido minha vontade de experimentar sabores exóticos, escalar as pirâmides khmer, percorrer a moto as 762 curvas da estrada entre Pai e Chiang Mai na companhia de uma grega ortodoxa, meditar enquanto travava conversas telepáticas com meus colegas, passar horas na praia, nadar em rios caudalosos e entrar clandestino em um campo de refugiados. Foi do caralho. Fiz dos meus dias uma aventura excitante e cansativa. Nunca me senti tão velho.

Todas pulsões parciais. Sentia falta de livros. Conheci muita gente, engenheiros, arquitetos, ciclistas, matemáticos, monges, agentes de viagem. Não eram nada disso. Eram pessoas, algumas brilhantes. Com exceção de uma jovem belga em Myanmar e um alemão na Tailândia, ninguém tinha o hábito de ler, ou parecia deter um conhecimento razoável de história ou das artes plásticas. Revoluções de 1848? Entschuldigung. Goya? Lo siento. Borges? Yeah, sure, but never read it. O mundo seguia indiferente ao seu legado cultural e eu me sentia só.

Em Berlim, comprei um Kindle por 50 euros. Guardava uma abstinência insana pelo idioma português. Minha pátria é minha língua. Ao longo de todo o mês de julho, reservei duas horas diárias à leitura de ficção, coisa que no primeiro semestre, por estar escalando pirâmides khmer não pude fazer.

Conheci uma garota com quem podia conversar sobre livros. Ela faz doutorado na Humboldt, pesquisa um tema relativamente obscuro e fala alemão. Depois, passei a dividir o apê com um cara que nunca leu um livro em toda a sua vida. Ele volta do trabalho e passa o tempo que lhe resta com a tv ligada em two and a half men dublado e jogando um negócio no celular.

Depois de Retrato do artista quando jovem, inspirado na viagem a Trieste (Joyce passou ali dez anos de sua juventude), comprei o Karl Ove por recomendação da Roberta Martinelli. Senti falta de prosa brasileira contemporânea, e decidi emendar no Divórcio do Lísias. Por sugestão da Leusa Araújo, li Fugitiva, da Nobel canadense Alice Munro. Depois, via Ricardo Rios, Meu coração de pedra-pomes da Juliana Frank, uma jovem paulistana. Busquei Faulkner, mas as traduções são todas pela Cosac Naify, que por apostar no refinamento das edições, não parece disposta a liberar os seus livros em ebook. Na contramão da Cosac, pela primeira vez achei que o livro de papel estivesse com os dias contados. Ninguém a não ser nós cervantinos prezam por sua materialidade. E eu, mais do que livros, queria ler. Gastei 110 reais nas cinco obras. Na livraria, teria gasto duzentos. Só o de Munro custava R$ 40, e na versão digital saía por R$ 10. Em Berlim tem um trem que dá a volta na cidade, numa linha circular. Você pode tomar o ringbahn no sentido horário ou anti-horário. Eu gostava de tomar um desses sempre no anti-horário e ler enquanto admirava a vastidão urbana pela janela, e após umas trinta páginas descia pra tomar um café ou comer um currywurst, e subia de novo para minha segunda rodada de leitura. Em um mês li 1488p. A minha amiga estudiosa gosta de dizer que estou de férias. Em defesa, afirmo que este é o meu trabalho, que medeio encontros etc. Mas é claro que ela tem razão. Não sinto a estafa do labor alienado. Não senti-la sempre me angustiou. Entre estafa e angústia, sou mais a primeira. O meu dia é um vazio impossível de preencher. (vide WEBER, M. Die protestantische Ethik und der ‘Geist’ des Kapitalismus).

Talvez as pulsões parciais não sejam nada do que eu disse que são. Averiguar. (Três ensaios sobre a sexualidade, 1905)

Há um efeito interessante em ler os livros em sequência e sem pausa. Entre James Joyce e Karl Ove, a impressão foi de tirar os sapatos. Entre Ove e Lísias amparei um choque, como se o segundo guardasse de rancor o que o primeiro preserva de melancolia nórdica. Entre Lísias e Munro, tive de frear. De Munro a Frank, foi como passar do uísque ao toddy. Gosto de toddy. Mas tive de fincar-me em outros valores. Cada livro defende os seus pontos fortes. Quando o leitor discorda desses pontos, fica difícil gostar do livro.

As pessoas aqui em Berlim praticam o sol e a grama, a tatuagem, a alimentação vegana, a bicicleta, as hortas coletivas, as expressões dramáticas, performáticas, as festas de topless, as drogas orgânicas e inorgânicas, o blasé (também conhecido como “capciosa indiferença” ou “aversão ao deslumbramento provinciano”), a união entre os povos (adolescentes), e sobretudo a beleza, que consiste num aperfeiçoamento profissional do bom gosto. Esse bom gosto está no vestuário, na publicidade, na proliferação viral de videos nonsense, na cenografia das vitrines, na decoração doméstica, nos efeitos de um cabelo x e uma tatuagem y e uma composição cromática z. O bom gosto dita que nada signifique, mas desenhe uma sedução, a alusão a algo que ninguém sabe muito bem o que é. Efeitos sutis. Em matéria de bom gosto eu devo ser um neandertal. Ou não. Já os livros persistem até para os artistas como uma referência, um modo a mais de absorver tendências, ou um descanso solitário. Mas não um ato, e não como forma.

Ia concluir dizendo que o meu tablet era um objeto total, que em sua mesma página toda a literatura escorria como num bloco mágico sem sulcos ou traumas, mas fui comprar agora Madame Bovary da Penguin-Companhia, na tradução do Mario Laranjeiras (a tradução que li na juventude era uma fraude). O livro deu pau e o aparelho me deixou na mão. Tive de ligar no sac em São Paulo para resolver o bug do Flaubert. Frustrado, tive ganas de realizar outros desejos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s