Sem futuro

por Rodrigo Linhares

1.
O filme a que assistíamos, por um desses descompassos que vez e outra acometem os aparelhos de projeção, teve de ser momentaneamente interrompido. O reparo não deve levar mais que três ou quatro minutos, fomos informados. Como que obedecendo a uma combinação prévia, visores azulados pipocaram pela sala de exibição.

Foi mesmo coisa de três ou quatro minutos até que o canhão de luz, de supetão, voltasse a atingir a tela. Os telefones celulares desapareceram. Nem todos, na verdade. Com justificada condescendência, a projeção do filme havia sido retomada de um ponto mais recuado da película, pouco antes daquele momento em que começaram os prejuízos causados pela dessincronia entre som e imagem. Mas nem todos desligaram seus telefones – houve quem entendesse essa segunda chance como oportunidade para seguir golpeando, com aparente indiferença, seus visores luminescentes.

2.
Somos difusamente acuados pela ficção de uma existência plena que está por vir. Ainda que não haja qualquer tipo de aviso ou antecipação, sabe-se, no entanto, que ela deve chegar logo mais. Faltam sempre só mais alguns minutos para a hora do recreio. São sempre só mais alguns minutos. Enquanto isso, celular à mão, é preciso manter-se atento. (Ainda que isso implique, de algum modo, uma desatenção fundamental).

Reconhecer essa angústia, a da vida em permanente expectativa, exigiria inclusive um trabalho de recomposição de estratégias teóricas e políticas. Por uma esquerda sem futuro, de T. J. Clark (Editora 34, 2013), manifesto publicado originalmente na revista New Left Review, em 2012, propõe um início para o acerto de contas.

3.
A esquerda radical fracassou em fazer com que suas respostas à derrocada na ordem financeira mundial tivessem uma repercussão mais ampla. Resta-lhe ainda, ao menos, a possibilidade de arriscar, do fundo da orquestra, uma mudança de tom.

Deve-se continuar insistindo na encenação de transfigurações, na antecipação de futuros – ou o melhor seria voltar-se para uma política de detalhes comezinhos, para “o trabalho sem lustro e sem o brilho da performance”? Deve-se permanecer o tempo todo “revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação”, apostar, mais uma vez, em uma política fundada “em uma multidão de terracota que espera a hora de sair marchando do túmulo do imperador” – ou o mais sensato seria endereçar aos amanhãs uma ironia infinita, “uma ironia camponesa, com seu justificado desdém pelo futuro”?

“(…) como seria para a esquerda deixar de olhar para a frente – fincando-se para valer no presente, abandonando as veleidades proféticas, mantendo uma atitude desiludida, a todo instante ‘debochando de seus presságios’? Isto é, o que significaria para uma política de esquerda deixar para trás – removendo-os do próprio grão, da própria ideia que ela faz de si mesma – os últimos suspiros e imagens da vanguarda?”

A questão da permanência ou não do capitalismo tem de ser temporariamente deixada de lado. O que vemos enquanto franzimos o cenho no “Grande Olhar para a Frente”? Uma promessa acenando a todo instante com sua chegada iminente, finalmente prestes a se realizar. São só mais alguns minutos. “É evidente que existe uma alternativa à ordem atual das coisas. Mas isso não leva a nada.”

4.
A renovação constante das expectativas, à custa sempre de frustrações renegadas, inadmitidas, divide com as relações de consumo um mesmo aspecto de infantilidade. Na recusa, feita de antemão, em submeter-se a qualquer tipo de constrangimento – algo difícil de se evitar nas trocas que mantemos com o mundo – o que se rejeita é a própria chance, a oportunidade, a possibilidade. Diversamente, uma política adulta tem de operar “com a percepção do horror e do risco inscritos nos assuntos humanos”. Com a percepção diária do revés mais que provável. Seu tom é trágico. Mas ao menos “a tragédia não nutre esperanças de que algo aconteça – algo transfigurador – e tudo se ajeite.” Na citação que Clark faz de Bradley (1851-1935):

“Vemos homens e mulheres se entregando confiantes à tarefa. Lançam-se sobre a ordem vigente das coisas para pôr suas ideias em prática. Mas o que alcançam não é o que pretendiam; é algo terrivelmente diverso do que tencionavam realizar. Eles não entendem nada – dizemos com nossos botões – do mundo em que operam. Lutam cegamente no escuro, e o poder que age por seu intermédio faz deles o instrumento de um desígnio que não é seu. Atuam com liberdade, e, todavia, suas ações os deixam de pés e mãos atados. E não se faz a menor diferença que suas intenções sejam boas ou más.”

5.
“A radicalidade se dá no presente”. As arengas que opunham reforma à revolução, no ambiente de intenso messianismo político do pré-guerra, perderam a pertinência. Não vai passar. Nunca haverá paz. “Não está na natureza das coisas (humanas) que a paz venha a se instalar um dia. Mas para a esquerda, tal admissão só torna ainda mais essencial (…) que o ponto focal, o núcleo sempre recorrente da política, esteja voltado para a contenção dos efeitos e da extensão da guerra (…).” Nesse sentido, reforma é revolução.

“(…) é um erro supor que a moderação em política – se entendemos por isso uma política que se caracteriza por pequenos passos, por uma sabedoria desiludida, por propostas concretas, pelo desdém para com as promessas grandiosas, por uma consciência da dificuldade presente mesmo no ‘avanço’ mais mínimo – não seja revolucionária, admitindo que esta última palavra ainda retenha algum poder descritivo. Depende do que os pequenos passos têm por objetivo mudar. Depende de como se configura, no caso, o quadro de possibilidades humanas. Uma política que, passo a passo, derrota a derrota, concentrasse seus esforços na tentativa de impedir que o tigre saia da jaula seria a mais moderada e revolucionária que jamais houve.”

6.
“(…) a ‘saída da modernidade’ será precisamente (…) um processo que nada terá de apocalíptico, um processo arrastado, massacrante, chocante, banal, medíocre, sem o menor traço de ‘espetáculo’. Essa é a realidade que, no contexto político atual, a direita e o centro (assim como a ‘esquerda’ estabelecida) a meu ver não conseguem enxergar, quanto mais enfrentar. Continuo a acreditar que uma esquerda não estabelecida – uma esquerda sem futuro – pode ser capaz de fazê-lo.”

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