O congresso dos vencedores

por Tony Monti

templodesalomao

A Igreja Universal acabou de inaugurar um templo gigante, que não tinha autorização legal para funcionar. Ou a autorização era provisória. Na inauguração estavam a presidente, o governador e o prefeito. A lei importa pouco. Era uma reunião de pessoas importantes, com múltiplos interesses, para barganhar prestígio político e econômico. Ninguém, imagino, vai interpretar a presença ali de gente não ligada a esta igreja como uma expressão do Estado laico. A mim pareceu mais o anúncio de uma despolitização do Estado, numa troca de favores sem ideologia ou religião, no contexto de uma frágil democracia contábil. Contabilidade de votos, que seja, números sem lastro ideológico.

No mesmo dia, de madrugada, um dos programas da Universal na TV mostrava mais uma reunião do seu Congresso dos vencedores. Os depoimentos são quase todos de gente pobre que ficou rica, de gente que passou a consumir alucinadamente. Mas o que assusta não é apenas a reprodução, na igreja, de uma ideia de sujeito social como alguém que basicamente consome. Nos relatos, outra estrutura que se repete é a ideia de transformação positiva quando se passa de funcionário a empregador. Não é discreto o prazer da vingança, do passar de explorado a explorador. “Eu tinha um empreguinho de nada, agora tenho 50 funcionários”. Assim, tanto quanto um Estado sem política, os nossos são tempos de igrejas laicas, o que não é muito animador.

O que faziam Dilma, Alckmin e Haddad na inauguração da igreja, senão reproduzirem a lógica individualista e apolítica da própria igreja? Quem ganhar as eleições pode depois dar seu depoimento no Congresso dos vencedores.

(créditos da imagem – Estadão)

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5 pensamentos sobre “O congresso dos vencedores

  1. Eu já acho, Tony, que é o contrário da despolitização. É uma aposta politica de governabilidade, com poder de submeter o Estado. E não só ao conservadorismo no plano dos costumes. A bancada fundamentalista religiosa atua em relação orgânica com o agronegócio. Enfim, a laicidade do Estado é impensável diante de um sistema político como o que temos hoje, tão controlado pelo poder econômico. Afinal, o Templo de Salomão demonstra justamente a força econômica da indústria da fé.

  2. Acho que, apesar dos termos distintos, talvez concordemos.
    Sem uma reforma política fica difícil.
    O meu palpite, no texto, era que, quando se resume política a eleições, some a política. e estaremos apenas contabilizando tempo na tv, fundos para a campanha, e, por fim, votos.
    Essa contabilidade é cruel.

    Acho que compreendo seus pontos, por isso é que acho que concordamos.

    • Acho que tendemos a concordar, mas o que estou dizendo não é bem isso. Existe, e concordo contigo, um movimento de esvaziamento do debate em lugar do fisiologismo, do tempo de TV etc. A forma como se organiza nosso sistema político, permitindo sobretudo os altos financiamentos, mas também a forma como se dão alianças proporcionais, o descompasso entre eleições municipais e estaduais/federal, o voto nominal, etc etc, somados à fragilidade da nossa democracia, muito centrada no momento eleitoral, com poucas possibilidades de participação popular, criminalização das lutas sociais, controle da mídia… vai longe. Nesse sentido, estou de acordo que o debate ideológico é próximo ao nulo, e a capacidade de aglutinar uma base de legendas e financiamento bilionário são decisivos.
      Ao mesmo tempo, percebo um segundo movimento – crescente nos últimos anos – simultâneo, de trazer ao centro da disputa um debate mais ideológico, polarizando as grandes candidaturas mais à direita. É o papel que cumpre a candidatura do Pastor Everaldo, por exemplo, e que cumpriu a candidatura do Russomano em São Paulo, aí com maior expressão. Esse debate interessa sobretudo ao PSDB, embora não possa assumi-lo abertamente por ainda contar com uma base importante em setores médios conservadores na economia, mas mais liberais nos costumes.

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