O lobo e o cordeiro

por Orlando M. Ferreira

AOB079bill

Pois não é que esta semana um colunista da Veja acusou a professora de filosofia da UFRJ Camila Jourdan, um dos 23 ativistas presos no Rio de Janeiro na operação Firewall, de proselitismo político em sala de aula? Eu não daria a menor importância ao que o Reinaldo Azevedo escreve, mas a prof. Jourdan teve por bem publicar uma réplica no Facebook, abrindo um debate que chamou minha atenção por apontar para alguns problemas do cenário político brasileiro.

Jourdan respondeu a Azevedo declarando que sua prova tratava de tópicos de lógica nos quais o conteúdo pouco importava para a resolução dos problemas. É como achar que o fato de serem laranjas ou melancias vai alterar o resultado de uma soma puramente numérica. Azevedo não compreendeu as questões da prova nem os termos fundamentais de lógica tratados ali. Considerando a resposta de Jourdan, a todos que se utilizam dos rudimentos da lógica fica clara a demonstração de má fé e ignorância do colunista. Contudo, se a resposta é boa do ponto de vista lógico, ela não é politicamente eficiente. Porque Azevedo e seus acólitos não se movem no território da razão, mas da truculência.

Essa história empresta um sentido atual à velha fábula do lobo e do cordeiro. Só para refrescar a memória, um lobo e um cordeiro estão bebendo água na beira de um riacho. O lobo, como pretexto para devorar o cordeiro o acusa de sujar a água, o que o cordeiro responde ser impossível, já que a corrente desce do lobo para ele. Ok, não entendi, diz o lobo, que logo em seguida devora o carneiro. Moral: contra a força bruta e a ignorância não adianta argumentar.

No caso de Azevedo, vale o que dizia o filósofo e historiador Vidal-Naquet a respeito dos pseudo-historiadores que negam o holocausto. Ele se recusa a responder a quem quer que seja desta vertente, pois, afirma, debater com eles no fim legitimaria a autoridade historiográfica do seu discurso, os colocaria como iguais.* Para que se estabeleça um debate intelectual é preciso decoro, boa fé, conhecimento e aceitação tácita dos termos sobre os quais ele será realizado. É a base do que se chamava, nos  tempos do humanismo, de república do saber. Neste sentido a filosofia não é no fundo uma coisa muito democrática, para cuja prática qualquer um se encontra habilitado só por possuir um cérebro operante. Filosofar não é uma “viagem” como dita o senso comum por aí, mas uma tarefa difícil, demanda disciplina, anos de estudo, leitura e escrita, noites em claro e alguns danos vertebrais.

Mas o debate político não é assim. Digamos que ele é mais democrático então, mas seria ingenuidade pensar que é possível estabelecer um diálogo racional com opositores do gênero de Azevedo – como se pudéssemos convencê-los racionalmente do que quer que seja. Seu pensamento não se move no campo da racionalidade, mas de uma mitomania cínica para a qual não importa a lógica, a filosofia nem a verdade. Reinaldo Azevedo e seus lobos-leitores não estão interessados no significado real da prova de lógica da prof. Jourdan.  Só desejam morder.

E nisso infelizmente eles não estão sozinhos, mas contam com o apoio de um formidável aparato institucional e midiático. Temos testemunhado desde as jornadas de junho de 2013, e principalmente da copa para cá, o acirramento da repressão às manifestações de rua que culminou com a prisão de ativistas políticos, sendo que foram 5 em São Paulo e 23 no Rio de Janeiro, sem contar o que está preso por porte de Pinho Sol. Há um processo nacional de criminalização da política não institucional em andamento, associado a uma ampla campanha midiática centrada na demonização dos manifestantes e dos black blocks. Jourdan é mencionada como uma das lideranças deste grupo num inquérito muito mal amarrado, cujos detalhes não me cabe mencionar aqui, mas que sabemos ter incluído como suspeito até o anarquista Bakunin, nascido em 1814. Como Azevedo, os diversos discursos governamentais, jurídicos e jornalísticos que envolvem as manifestações e os presos recusam qualquer compromisso com a razão e a verdade, descambando para a criação de enredos fantásticos, como se estivéssemos num programa do History Channel, onde a única coisa que interessa é o espetáculo.

Isso me recorda o tratamento dado pelos nazistas a todo discurso político com pretensões racionais. Sua postura contra o que denominavam “blá blá blá intelectual”, desprezando toda argumentação que não fosse fundada na força bruta (retórica e física) e nos sentimentos crus. E nisso razão era um estorvo. A política para eles era o reino da mentira deslavada, com a calúnia em posição de destaque. Tinham até um termo para a elaboração de fantasiosos enredos políticos: Märchen (contos de fada). Ademais, é clara em Mein Kampf a posição de Hitler a este respeito, de que o povo é ignorante e de que ao nos dirigirmos a ele não devemos utilizar argumentos intelectuais, mas somente imagens simples e claras. Estes traços da extrema direita do século XX estão sendo reeditados de modo preocupante na cena política brasileira do século XXI, no que temos visto de mais grotesco na opção pela propaganda difamatória, a calúnia e o linchamento público.

_________________________________

* Vidal-Naquet. Os assassinos da memória. Campinas, Papirus, 1988, p. 11.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s