Somos todos estrelas no céu opaco de Narcisópolis

por Abilio Godoy

Nem o assassino, nem a puta, nem o escritor podem existir sozinhos: o assassino precisa de uma vítima; a puta, de um cliente; e o escritor, dos seus leitores. A diferença é que o assassino recebe do contratante para matar a vítima; a puta recebe do cliente para se tornar sua vítima; e o escritor recebe do leitor para o fazer de vítima. Escrevi meu primeiro poema com quinze anos. Minhas vítimas foram três colegas de classe e o meu avô. Acho que eles gostaram da métrica regular e dos versos rimados. Guardo o caderno até hoje. Talvez eles fossem generosos demais para me dizer que meu poema era um lixo.

Lancei meu primeiro livrinho – uma antologia de poemas que escrevi dos quinze aos vinte – em 2004, graças a um amigo que precisava editar alguma coisa para o seu TCC. O orientador dele me perguntou se eu queria mesmo publicar aquilo, que eu era jovem e mais tarde podia me arrepender. Fiquei com raiva e respondi que claro que sim. O lançamento foi no Madame Satã. Além dos familiares constrangidos e amigos generosos, cumprimentaram-me um punhado de góticos desconfiados, para quem não vendi mais que meia-dúzia de exemplares. Não tive notícias deles, mas duvido de que tenham gostado.

Por sorte, continuei escrevendo. E, embora não caiba a mim avaliar, acho que de lá para cá melhorei um tanto. O que não sei dizer é se já ganhei mais leitores do que os que imolei. Mas sei que os remanescentes dessa espécie são disputados a tapa por um contingente cada vez maior de escritores e que parece curioso que os algozes se multipliquem à medida que suas vítimas desaparecem. É que, incentivados pelas novas mídias, hoje somos todos protagonistas. Somos todos escritores, fotógrafos e cineastas em Narcisópolis. Todos espermatozoides frenéticos, nadando para este óvulo azul, no topo da página, que anuncia em vermelho as novas curtidas. Para quem quer ser popular não há tempo a perder com o outro. Ler, e ser um objeto indireto da imaginação ou argumentação alheia, parece passivo demais, imóvel demais para as exigências da Narcigaia. Temos pressa de publicar nossos livros imaturos, urgência de atormentar os outros com a nossa genialidade latente e o nosso eu incompreendido.

E é por isso que todo dia eu preciso fechar os olhos e lembrar que – mais do que publicações, prêmios, resenhas, números, curtidas ou compartilhamentos – são meus melhores leitores, aqueles que eu conquistei sem pressa, em quinze anos de persistência, os únicos que me deixam à vontade para dizer por aí que ainda escrevo. Não fosse seu incentivo e eu teria desistido há muito tempo. Não fosse sua crítica e eu não seria melhor do que aquele adolescente com seu poeminha no caderno de geografia.

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