Oscilações, milagres e sorte – somos péssimos em matemática

oscilacao

por Tony Monti

Quando um candidato a presidente vai à TV e diz que a dona de casa percebe no supermercado o aumento da inflação, ele (1) não fez as contas, (2) não sabe fazer as contas ou (3) é mal-intencionado? Aritmética simples, mas de um tipo que a maior parte das pessoas prefere evitar: a diferença de 4.5% (centro da meta de inflação) para 6% de inflação anual significa uma diferença de 1.5% anuais. Em média, após um mês de inflação, uma compra que custaria 100 reais (a 4.5% anuais) custa (a 6% anuais) 100,125 reais (100 + 1.5/12). Não conheço quem perceba, a sério, a variação de doze centavos numa compra de 100 reais. Doze centavos são as moedas que a gente perde no furo do bolso.

A vida é cheia de oscilações e nosso olhar é muito atento às ondas maiores, aquelas que podem nos arrastar. O que a gente percebe no mercado é a oscilação do preço de um produto específico, em geral o aumento, sem notar que há eventuais diminuições e sem perceber que, em média, os preços praticamente se mantêm.

Nos jogos, a afamada sorte de principiante vem de um engano similar. De todas as pessoas que jogam pôquer uma vez, é mais provável que as que continuem a jogar sejam aquelas que ganharam nas primeiras vezes. Reforço positivo, psicologia comportamental básica. Em um universo de ganhos e perdas, as que continuam a jogar são as que vão produzir o discurso sobre o jogo. As demais estão lendo, vendo TV, trabalhando, pouco se importam com pôquer e não falam mais sobre o jogo. Assim, de fato quem continuou a jogar teve, em média, alguma sorte no começo. Mas não são todos os principiantes que têm sorte. O fato é que são os que tiveram sorte que contam a história.

O problema matemático ganha desse modo uma face narrativa. Quem atribui o sentido aos fatos?, como, com que finalidades, com que interesses, com que consequências? Pode-se dizer, por exemplo, que se a gente der o nome de milagre aos fatos positivos da vida, e esquecer de perceber que a vida oscila, varia, e que a gente não sabe explicar mesmo tudo, está fundada uma igreja. Foi deus quem me ajudou a ganhar na loteria. Mas não foi deus que não ajudou a todos os demais apostadores. Chamando de milagre o que nos acontece de positivo, a gente ganha uma palavra (milagre) e perde muitas palavras e pensamentos (oscilação, variação, sorte, probabilidade, acaso).

Assim, por sua vez, a narrativa ganha uma face política. Quando se dá o nome de “inflação alta”, “juro alto”, “PIB baixo”, e se repete a ladainha ao infinito, a gente pode passar a acreditar que (1) estes são os fatores que organizam nossa vida cotidiana e que (2) o estado das coisas é ruim. A boa economia sabe que parte do desempenho das instituições, públicas ou privadas, depende do que se acredita sobre o desempenho delas. Trabalha-se com números e com discursos. O problema com a economia, com os jogos e com os milagres é que às vezes é preciso pensar.

Lembro de uma passagem do Gramsci que diz que perceber a vida é olhar para o mundo concreto, cotidiano e próximo, e esquecer do véu discursivo que mascara o que deveria ser mais importante. Não se deve valorizar aquilo que a gente não entende.

Me parece positivo entender e falar de economia, mas esse economês de eleição é triste e perigoso. Se não fosse perigoso, seria só conversa para engordar porco, aquela lengalenga para passar o tempo no bar. Só isso. Seria como o futebol, um lugar tranquilo para a gente exercer ingenuamente nossa ignorância sobre o mundo.

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