Contra o Bolsa Família

por Abilio Godoy

Nós, os cidadãos de bem de Narcisópolis, somos contrários ao Bolsa Família.

Afinal, melhor que dar o peixe, é ensinar a pescar. Pouco importa o contexto, ou o sujeito em questão – essa é a máxima universal. Pouco importa se o sujeito não tem vara, linha ou anzol – o conhecimento é o que vale mais. Pouco importa se quando ele chegar com seu barquinho, nossa lancha já tiver passado a rede. Sempre sobra algum para quem se esforça um pouco. E se não sobrar, seremos generosos e lhe daremos um trocado para olhar nosso carro, cuidar das nossas crianças, ou lavar nossas privadas. Melhor que dar esmola é dar trabalho e oportunidade.

E, por falar em oportunidade, por que não usar esse dinheiro para construir escolas? Quem precisa de comida, remédio, roupa…? As crianças precisam é de estudo – o conhecimento é o que vale mais. Pouco importa que até a escola ficar pronta as crianças cresceram marginalizadas. Pouco importa que a escola pública não conduza à universidade. Não precisamos só de doutores – também precisamos de faxineiros e lixeiros e serventes de obra e garçons e coveiros e babás e professores. Precisamos, inclusive para essas novas escolas, encontrar por aí alguém idealista ou desesperado o bastante para copiar o livro na lousa por algum trocado. E se a aula for ruim, não tem problema. Melhor a criança desestimulada na sala do que roubando e usando droga. Mas se a meninada matar a aula também não faz mal, que a nossa polícia mata. Melhor que dar esmola é dar educação e oportunidade.

Como pode ser justo o governo distribuir o dinheiro do imposto que sonegamos com tanto custo? Agora então é socialismo? Não, não está certo o sujeito receber sem trabalhar. Isso só na cabeça de comunista. Com a exceção da parte que herdou tudo o que tem, ou que roubou tudo o que tem, nós trabalhamos muito para chegar aonde chegamos. Passamos noites sem dormir pensando em como lucrar mais e pagar menos aos nossos funcionários. E aí vem o governo e começa a dar dinheiro? Quem vai querer trabalhar se o governo dá dinheiro? Quem vai olhar o nosso carro e cuidar dos nossos filhos e lavar a nossa privada? Quem quer trabalhar se o governo paga setenta reais para o cara ficar de barriga para cima. Setenta reais é muito dinheiro para essa gente simples. A gente viveria muito bem com setenta reais se não tivesse que pagar cartão de crédito, telefone, internet, escola, plano de saúde, seguro do carro. Mas essa gente humilde não precisa de nada disso. Gasta setenta reais com cachaça e é tudo uma festa. Não, senhor. Ganhar dinheiro assim, sem trabalhar, é desonroso. Os ricos podem, mas é por causa da sua dignidade natural. Já os pobres precisam do trabalho para se civilizarem e aprenderem o valor das coisas. Melhor que dar esmola é dar dignidade e oportunidade.

E se for mesmo para dar esmola, deixem o dinheiro do imposto – o que a gente não sonega – conosco e nós mesmos entregamos ao mendigo do farol. Não setenta reais, que não andamos com muito dinheiro na carteira. Mas sempre tem umas moedas ali no porta-copos do automóvel. Quinze, vinte, trinta centavos não hão de faltar. A não ser que o carro seja blindado, porque aí ninguém é louco de abrir o vidro nessa cidade violenta.

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