A criança e o luto dos encantos

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por Tiago Novaes

O ânimo das crianças. A criança é um adulto animado. A criança é naturalmente animista. Animar: ânima: alma. As bonecas têm vida, a escuridão têm vida, os sonhos têm vida. Tudo é importante – o detalhe é fascinante porque mínimo. É o mínimo onde perder-se como um labirinto de encantos. As coisas grandes são grandes! As pequenas são pequenas! As cores valem por si. O vermelho e o rosa surpreendem, um trator azul é fascinante porque é um trator azul. Ele existe tanto, um trator azul. Um gato é uma aparição que se funde ao frenesi e faz com que o que vejo se torne eu mesmo. Eu sou o gato. Eu sou azul. Eu sou o sonho e a escuridão.

Lentidão lânguida dos adultos. Quando criança, recordo que um dia percebi que os adultos caminhavam em câmera lenta. Para mim, partir era chegar, ou não chegar e frustrar-se até querer alguma outra coisa. Para os adultos não. Eles se levantavam devagar do sofá, como se estivessem tomando cuidado, como se o corpo fosse feito de engrenagens frágeis. Eles não corriam. Não tinham pressa, não tinham ânimo. E estavam sempre cansados.
Sempre que chegávamos a uma pousada, meus pais se recolhiam no quarto para dormir, ou “dormir”. Falavam: estamos cansados. Eu e meu irmão não nos conformávamos e ficávamos enlouquecidos com isso, mas nos víamos enfim livres para explorar os enigmas que o hotel escondia. “Hotel Príncipe”, em Curitiba, fachada do início do século XX, um sobrado descascando, por onde doutores passavam com cartolas e compotas de sanguessuga. A face desbotada do recepcionista velava assassínios. Uma reunião secreta. O corpo sob a cama, mofando o carpete. As histórias estavam lá.

Bovary e Quixote. Crescer foi deitar água fria à fervura. Essa imagem é de Manuel Bandeira quando descobriu a tuberculose na adolescência. A morte acabou com seu viço e perpetuou, como sabemos, sua vida. Bandeira é um encanto. Em sua poesia encontramos o menino e a morte. Destino mais trágico foi o de Emma Bovary e Dom Quixote. A dama e o cavaleiro que crescem como crianças. Os dois querem as aventuras que a infância e os livros prometeram. A água fria à fervura: o realismo ao romantismo, o prosaico à loucura. Para ambos, o desfecho é trágico.

Um aparte. Trabalhei quando jovem como voluntário de uma ong, coordenando oficinas sobre sexualidade com meninos da Febem Tatuapé. O que me surpreendia era o fato de que aqueles meninos – os pequenos bandidos, os pequenos assassinos – estavam ali por quererem mais. Eles queriam tudo. Cresceram no delírio do consumo, na sedução da vertigem. O crime foi só a forma a que tinham acesso. A que tinham excesso. O crime foi o excesso permitido aos pequenos Quixotes e Emmas. Até a tragédia os animava. Mas no lugar do encanto havia sangue.

Leiam Madame Bovary. “Era uma existência acima das outras entre o céu e a terra, nas tempestades, algo de sublime. Quanto ao resto do povo, estava perdido, sem lugar preciso, e como não existindo. Quanto mais as coisas, aliás, eram vizinhas, mais a sua mente se desviava delas. Tudo que a cercava de imediato, o campo enfadonho, pequenos burgueses imbecis, mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um acaso particular em que ela se encontrava presa, ao passo que para além se estendia, a perder de vista, o imenso país das felicidades e das paixões. Ela confundia, no seu desejo, as sensualidades do luxo com as alegrias do coração, a elegância dos costumes e as delicadezas do sentimento.”

O adulto que queimava livros. O Chefe dos Bombeiros em Farenheit 451 tem livros em casa mas não os lê. Priva-se do combustível que inflamou os ânimos de Quixote e Bovary. No futuro imaginado por Bradbury, ler tornou-se um crime. Em certo momento, ele confessa já ter sido um leitor: “Ah, olhe para mim, Montag. O homem que amava livros, não; o menino que era selvagem por eles, louco por eles, que escalou as estantes como um chimpanzé enlouquecido por eles.” Mas o que aconteceu, então? Montag pergunta. “Ora, a vida me aconteceu. A vida. O de sempre. O mesmo. O amor que não foi muito bem, o sonho que se estragou, o sexo que se desfez, as mortes que vieram subitamente para amigos que não mereciam, o assassinato de um ou outro, a insanidade de alguém próximo, a morte lenta de uma mãe, o suicídio abrupto de um pai; uma debandada de elefantes, o ataque de uma doença. E em lugar nenhum, em lugar nenhum encontrei o livro certo, para na hora certa enfiar na parede prestes a desmoronar do dique que se rompe, para conter a inundação, dar ou tomar uma metáfora, perder ou encontrar um símile.”
O ânimo inflamado pela ficção era um despreparo para a vida. A ficção era uma traição. A alegria era uma mentira.

Crescer. Crescer foi deparar-se com gente que dizia: ah, isso eu já sei. Isso conheço bem. O desânimo era o valor da maturidade. Tinha um amigo no colegial para quem mostrei uns trechos de Grande Sertão. Recordo o desprezo com que o recebeu. “Viver é perigoso. Carece de ter coragem.” Ora, mas isso é um chavão, ele disse. E senti que meu animismo era uma estupidez, que minha alegria era o saltitar de um tolo, de uma criança retardada por achar aquilo a maior das revelações. Viver era perigoso de formas que a gente nem imaginava.
Os artistas eram mais emancipados quanto melhor conhecessem as coisas com a frieza dos doutores de bisturi. E para mim a literatura seguia como aquele gato diante da criança que tremia de excitação. A maturidade e o desânimo vieram como em Bovary e Quixote. Eu não era ninguém. Eu não derrotava dragões. O hotel príncipe era um sobrado descascado. A paixão, um idealismo datado. Meus excessos não tinham serventia, não eram adequados. O cianureto da melancolia espalhou-se na boca, e no século XXI se chamava sertralina.

Psicotrópicos. Tranilcipromina, moclobemida, doxepina, maprotilina, duloxetina, venlafaxina, fluoxetina, paroxetina, isocarboxazida, iproniazida, fenelzina, clorgilina, citalopram, fluvoxamina, toloxatona, brofaromina, befloxatona, amitriptilina, clomipramina, imipramina, desipramina, nefazodona, trazodona, tianeptina, mirtazapina, mianserina, minaprina, bupropiona, amineptina, viloxazina, reboxetina.

Ser adulto. A sertralina é um antidepressivo que atua nas ligações sinápticas do cérebro, inibindo a recaptura da serotonina. Já a melancolia era uma enfermidade que tornava a vida mais pobre. Havia os que alertavam para o fato de que a tristeza – o luto eterno dos encantos – produzia um déficit cognitivo irreversível. Os efeitos adversos do remédio podiam ser resumidos numa palavra: inapetência. Perda da fome sexual, perda da fome por comida, perda da curiosidade, perda da ansiedade sem nome, perda do sentimento de perda – tudo desaparecia. A sertralina era um inibidor de bovarismo, um mecanismo de integração na paisagem. Não me importava ser eu ou ser outro. Não me importava se o trator era azul ou amarelo, se as coisas demoravam para acontecer. Eu podia me erguer devagar do sofá, eu podia desfrutar do processo. Menos tomado pelas coisas, seria eu a tomá-las. Agora eu poderia ter ambições. Tomar casas, mulheres, enxergar as coisas como eram. Planejar com a paciência de um estrategista. Amotinar-me, matar Ulisses e tampar os ouvidos com cera, para que jamais tomássemos conhecimento do cântico mortífero das sereias e pudéssemos continuar navegando.
Minha cera se chamava sertralina.

(continua)

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