Cartman, Diógenes e os bárbaros

 You're_Getting_Old_Screenshot

por Orlando M. Ferreira

Definitivamente, o humor se tornou cínico. Não é preciso procurar muito na infinidade de canais a cabo para encontrar  desenhos animados “adultos” onde os pontos de dor do mundo contemporâneo são apresentados sem a menor cerimônia e se tornam motivo de riso. Sabem do que estou falando, o modelo pré-histórico e desgastado é Os Simpsons, superado em ousadia por South Park que, no entanto, já se arrisca a perder o troféu para Uma Família da Pesada e American Dad. O consenso é que os autores chocam para vender, mas que também há uma vaga aspiração crítica; como a propaganda de South Park menciona, sua vantagem é ser “cada vez mais ácido”, em referência a um humor que não respeita nada.

Neste sentido, talvez não haja uma grande diferença entre o humor boçal de Danilo Gentili, que chama o riso pela escatologia “transgressora”, e o humor de seriados do gênero de South Park, nos quais o trabalho infantil, a escravidão, o assassinato político, a tortura e todo tipo de sofrimento humano se tornam motivo de piada. A ordem é “não há limites”, é prosseguir “breaking all the rules”. Daí a recusa a qualquer censura moral como babaquice politicamente correta ou “coisa de hippie”, como diria Cartman, o anti-herói de South Park.  

É possível perceber aí um traço fundamental do cinismo pós-moderno que o distancia do cinismo da Antiguidade, expresso por filósofos como Menipo e Diógenes.* Se estes debochavam dos homens, denunciando sua vileza, especialmente a dos ricos e poderosos, eles o faziam em defesa da moral e não contra ela.

Por outro lado, transparece um ponto ambíguo de convergência. De modo semelhante a South Park, o cinismo antigo se funda na constatação irônica do absurdo do mundo, uma ordem infernal, louca e cruel na qual o único consolo é o riso. Um riso ácido, por certo, mas somente por seu potencial em dissolver esta ordem de coisas, como desejo de transformação do mundo.

Eis porque considero South Park uma das poucas coisas inteligentes atualmente exibidas na TV brasileira. Com seu desfile cínico de bizarrices politicamente incorretas, sua sátira abre uma  brecha crítica no real. Mas apenas se o telespectador quiser exercer a crítica, é claro, porque a série pode ser, como na maioria das vezes é, assistida como um programa na linha da maioria do humor que pulula por aí. Na medida da atração exercida pela boçalidade de Cartman, podemos achar tudo engraçado e pensar, “o.k., o mundo é mesmo bizarro e cruel, mas dane-se, é melhor rir do que chorar e no fim posso até lucrar com isso”.

Mas também é possível assumir a postura crítica de Stan Marsh, o personagem que foi ao médico porque um dia “começou a achar tudo uma merda”, e recebeu o diagnóstico de que era um cínico irremediável.** O “cinismo” de Stan não é como o de Cartman, que se conforma com o sofrimento humano, nem como o de Diógenes, que evoca o absurdo pelo riso para o desmascarar. Na verdade, o diagnóstico do médico estava errado. Stan não é um cínico. Ele se entedia profundamente com uma realidade que de repente se revela “uma bosta” e se torna um tipo de realista deprimido e alcoólatra.

Os grandes cínicos, afinal, são os próprios criadores/roteiristas da série, que não operam nos termos de uma recusa da ordem das coisas que retratam, mas a favor de um conformismo pós-moderno. Pois no fim o objetivo, sabemos, é empacotar e vender o produto, um desenho animado facilmente digestível.

Isso sinaliza para a visão de mundo dominante na atualidade, expressa na cena do filme As invasões bárbaras, em que velhos intelectuais de esquerda da geração dos anos 60 relembram com humor seus ideais políticos de juventude: “um dia fomos existencialistas, então viramos trotskistas, daí nos tornamos maoistas, e depois…, e depois…”; para no fim se descobrirem rindo de si mesmos, da inocência censurável que um dia foi crer em alguma coisa além da falta de sentido das coisas.  Eis que agora nada mais vale o esforço, a crença e o sacrifício desinteressados, porque na selva do livre-mercado pós-tudo (e antes do nada) a única coisa que interessa e valida a ação é vencer. Para não serem arrastados para a lama dos que, como Stan Marsh, se deprimem com essa grande merda.

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* Diógenes de Sinope (s. V-IV a. C.) e Menipo de Gadara (s. IV – III a. C.). Devo a ideia apresentada neste parágrafo a Michel Onfray, no artigo “Revolta”, in: Café Philo, RJ, Zahar, 1999, p. 32-36. 

** South Park, Temporada 15, episódio 7, “You´re getting old”.

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