Dinheiro é ideologia

1984

por Tony Monti

Um dos modos, já tradicional, de refletir sobre as transformações de uma sociedade é dividir as perspectivas de mudança em revolucionárias e reformistas. As reformas são pequenas torções na situação presente. A revolução é uma transformação radical, que mexe com os próprios fundamentos dos modos de pensar e agir.

O que acontece, no entanto, se utilizamos a ideia de revolução para repensar a própria dicotomia? Reformular as opiniões consagradas em uma nova realidade histórica pode gerar frutos curiosos, em que revolução e reforma se confundem. Para não ficar em um jogo de palavras vazio, que mais parece uma derivação da novilíngua (1984, Geroge Orwell), quero propor uma reflexão simples sobre a democracia no Brasil.

Política é marketing

Não é incomum que utilizemos as mesmas palavras com intenções diferentes. Há quem, em um sentido amplo, chame de política a teoria e a prática no espaço público, em sociedade. De um modo mais estrito, há quem chame de política a prática eleitoral para estabelecer os coordenadores da administração pública.

Na segunda concepção de política, a estreita, não é impossível achar que esquerda e direita não fazem sentido. De fato, se os ocupantes dos cargos fossem apenas gerentes de uma burocracia impessoal, sumiriam, em grande medida, as distinções ideológicas.

Mais do que isso, em um sistema eleitoral no qual os partidos se financiam com dinheiro da iniciativa privada, acontecem fatos estranhos, como uma mesma empresa doar 5 milhões para cada uma das principais candidaturas à presidência. Evidentemente, a Friboi não doa fundos, para todos os partidos, pelo gosto de financiar o debate político. Evidentemente também, em um sistema que privilegia a propagação das ideias dos que têm mais dinheiro, sobrevive sempre uma ameaça velada aos que quiserem enfrentar os interesses dos financiadores de campanha.

Uma derivação perversa e imediata deste sistema de financiamento é que, se alguém quiser reformar de fato o financiamento de campanha (e a política de alianças), desdizendo os desejos dos financiadores, este destemido pode ficar de fora da distribuição de verba de campanha nas eleições seguintes. Assim, a “democracia eleitoral” fica emperrada em um modo marketeiro. É preciso dinheiro para a venda dos candidatos, como mercadorias, em vez de ser estabelecida uma discussão de propostas sobre o espaço público.

O peemedebismo é um dos aspectos desse sistema, a eternização dos mesmos modos e das mesmas pessoas no poder. Independente dos ocupantes dos cargos, as possibilidades de ação no sistema “democrático” ficam muito restritas.

Esquerda é direita

Não dou muito ouvidos a quem acha que PT e PSDB são iguais, e considero psicopatológica a acusação de que o PT no governo prepara um golpe comunista. Ainda que com pequena margem de manobra, o PT no governo está à esquerda do PSDB no governo. Mas não mais que isso.

De qualquer modo, é perceptível que a liberdade formal do nosso “sistema democrático” coloca enormes barreiras a desvios de rumos. Muito distantes de transformações estruturais, mesmo as pequenas reformas andam em terreno acidentado. Qualquer pequeno movimento tem que levar nas costas a inércia do pântano todo. André Singer (Os sentidos do Lulismo), por exemplo, chamou de “reformismo fraco” as transformações socioeconômicas produzidas pelo PT no governo federal. Os interesses do grande capital não são enfrentados. Há alguma redução da pobreza absoluta, sem diminuir a desigualdade social. Não mais.

Fora dos limites institucionais, no campo da política ampla, a liberdade efetiva é buscada pelos movimentos sociais em luta nas ruas por transformações mais radicais. Uma derivação curiosa das jornadas de junho de 2013 é que o novo Plano Diretor da cidade de São Paulo foi aprovado com 30mil pessoas, ligadas ao movimento sem-teto da cidade, em frente à câmara dos vereadores, incentivadas pelo prefeito. O poder institucional uniu-se ao poder das ruas de modo a favorecer os interesses de ambos. Talvez algum vereador tenha votado “sim” por receio de ver seu carro riscado.

As diferenças entre esquerda e direita se dão com clareza fora do âmbito eleitoral, na rua, e seriam mais visíveis na política partidária caso fosse possível eliminar a inércia ligada ao sistema eleitoral e ao peemedebismo. Conveniente, vale lembrar, para a direita é que as diferenças ideológicas se apaguem, na medida em que o que restaria seria o dinheiro.

Reforma é revolução

No domínio das eleições e da administração pública atuais, não menos importante que o vencedor da eleição é o desembaraço do cipoal que impede as reformas mais fortes. A Reforma Política, neste sentido, pode ser uma revolução, de âmbito específico, desbastando os entraves para as mudanças, pelo menos, no que se refere à perpetuação dos ocupantes dos cargos e de seus mais próximos aliados. O fim do financiamento privado de campanhas, da proporcionalidade de eleitos nas alianças eleitorais, da venda de tempo de TV em troca do loteamento de ministérios e secretarias, pode talvez dar mais agilidade ao sistema político, de forma que as eleições atendam mais imediatamente às demandas históricas e que os resultados eleitorais estejam menos sujeitos ao poder do dinheiro.

Tenho a impressão de que, se não se trata de um beco sem saída, é pela pressão pública, de gente na rua, pela produção de discursos mais elaborados, pelo convencimento de massas e pela ameaça da derrota eleitoral produzida paradoxalmente fora do âmbito eleitoral, fora e dentro, que, dialeticamente, no âmbito eleitoral as coisas podem se transformar a nosso favor.

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