Não reclama contra o temporal

seca

por Abilio Godoy

Eu não devia reclamar tanto. É o comentário que mais escuto sobre minhas publicações aqui. Seus textos são bons, você escreve bem – mas não devia reclamar tanto. Você é muito ácido, negativo, pessimista. Assim fica parecendo um chato, um despeitado. Não pega bem reclamar em Narcisópolis. Não se pode disparar por aqui uma metralhadora cheia de mágoas. A vida não passa de um jogo e ninguém atura um mau perdedor.

Tudo bem, eu posso aceitar a crítica. O que não posso é deixar de observar que mesmo os que me pedem para reclamar menos costumam se queixar com frequência da sorte, das ressacas, da insônia, das dores de cotovelo, do dedo indelicado do urologista. O bom perdedor, parece, é o que reclama dos dados – deselegante é o que pretende questionar as regras do jogo. E fundamental é a civilidade de se queixar em privado, na janela do chat ou no divã do consultório. Somos quase todos perdedores, mas precisamos guardar isso em segredo.

E por que mesmo precisamos? Ah, sim, porque temos vergonha de perder e aceitamos a culpa por cada uma das nossas derrotas. Você é pobre? A culpa é sua. Está doente? A culpa é sua. Foi demitido? A culpa é sua. Foi traído e abandonado? A culpa é sua. Foi estuprada? Culpa sua. É drogado, alcóolatra, gordo, deprimido? Sua máxima culpa. Não há nada de errado com o jogo – a culpa é sempre do jogador. E se mais de 20% das pessoas no planeta sofrem de depressão, a culpa só pode ser dessa gente chata, reclamona e derrotista.

Afinal, é só ligar a tevê para ver o depoimento de um monte de gente que venceu dificuldades enormes. Do goleiro – coitado, que só ele e a família sabem o que passou – à senhorinha feia que virou uma grande cantora. Do empreendedor que enriqueceu com uma ideia criativa ao sujeito que não tinha nada e chegou lá, com uma mãozinha do apresentador gente boa.

Poxa, é do otimismo dos vencedores – não de reclamações – que o mundo precisa! Quem sou eu para reclamar, se essa gente sofrida conseguiu chegar tão alto? Se perdemos, a culpa só pode ser nossa, porque não jogamos direito. Ou então porque faltou um pouco de sorte, faltou aquela mãozinha do apresentador. O importante, porém, é não desanimar. É continuar jogando de queixo erguido. Se for para reclamar, que seja das cartas e só para os íntimos.

‘Não reclama contra o temporal’, dizia uma velha canção de Narcisópolis*. Não reclama, insistia o sambista, que hoje talvez nos aconselhasse a não reclamar da seca. Não reclama, ele assobiava enquanto seu sarcasmo fino escancarava os absurdos. Não reclama, ele cantava para nos ensinar a não culpar a chuva, ou qualquer lance dos dados. Não reclama, ele reclamava com a coragem resoluta de um mau perdedor que não se conforma com as regras injustas no manual que os vencedores imprimem.

* https://www.youtube.com/watch?v=xvYO3z8q-QY

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3 pensamentos sobre “Não reclama contra o temporal

  1. Que post bom de ler! (Convencer toda a gente de que as regras são justas porque claras e modestas e que, portanto, cabe a cada um a responsabilidade para se manter no jogo – depois de todas as lutas, todas as conquistas e da invenção da ideia de algo como uma “propriedade social” – foi uma das maiores espertezas estratégicas do neoliberalismo. Muito, mil vezes mais efetiva do que suas práticas de austeridade, reformas do estado etc.).

    • Pois é, Fabiana. Aquilo que já sabemos: o “perdedor” se conforma porque é convencido de que o jogo é justo, que se ele jogar direitinho não tem como dar errado e chegará sua vez de vencer. E o pior, acho, é que essa ilusão não só bloqueia o potencial do “perdedor” de revoltar-se contra as regras, como, ao contrário, acaba por transformá-lo em seu feroz defensor. Daí algumas pessoas virem reclamar das minhas críticas e me taxarem (não, eu não inventei) de despeitado, pessimista, etc.

      Obrigado pelo comentário!

  2. Pingback: 21sp – entrevistas – Abilio Godoy | 21sp

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