O futuro do passado (1): o videofone

videophone1

por Orlando M. Ferreira

Nos filmes de ficção científica dos anos 70 nos impressionávamos com o videofone, aquele aparelho telefônico que permitia que as pessoas vissem a cara umas das outras. Era um telefone com tela de TV, ou vídeo, daí o nome. O mais famoso é o que aparece em 2001: Uma Odisseia no Espaço, na cena em que o dr. Floyd conversa, da estação orbital, com sua família que está na Terra.

Há uma lógica de desenvolvimento progressivo na ideia do videofone: primeiro surgiu o papel e o texto escrito, a carta; depois o telégrafo, que emitia sinais sonoros simples; daí veio o telefone, que transmitia a fala; então apareceu a TV e a transmissão da imagem; a próxima etapa seria, com certeza, o acoplamento de uma TV a um telefone, dando origem ao ápice da comunicação moderna, o videofone. Esta previsão não considerou, contudo, aspectos que se delinearam depois, durante a revolução técnico-científica dos anos 80 e 90, principalmente hábitos culturais relacionados com as novas tecnologias informáticas. Isso nos chama atenção para o fato de que as concepções lineares do progresso e as teorias do futuro que nelas se sustentam costumam ser, apesar das aparências, equivocadas.

O videofone a rigor não existe hoje em dia.* Apesar de realizarmos o sonho da ficção científica do passado, ele não é um aparelho telefônico – um hardware, diríamos – mas um software subordinado ao contexto físico de um computador, algo que não participava de sua representação no passado. Na ficção científica, até os anos 60, o computador era um aparelho que respondia perguntas. Os cientistas falavam e ele soltava um rolo de papel ou dizia a resposta. Nos anos 70 ele foi se tornando uma figura ameaçadora, um cérebro eletrônico meio desequilibrado, como o próprio Hal9000 em 2001. Já o videofone era um artefato diferente, existia à parte dos computadores, como os carros voadores, aerotrens e o teletransportador de Jornada nas Estrelas.

No entanto, o maior equívoco do passado, que deixaria as pessoas dos anos 60-70 atônitas, é nosso descaso em relação ao videofone justo no momento em que ele se tornou virtualmente real.  Ao invés de nos fartarmos com o uso do Skype, ele permanece como um recurso restrito por certos hábitos culturais que condicionam sua utilização, na maioria das vezes, entre pessoas que guardam alguma intimidade, colegas, amigos, parentes ou amantes. Além disso, o próprio uso do telefone recuou diante do texto, pela prática de teclar mais do que falar, o que ocorre tanto nas redes sociais quanto nos celulares. E apesar do que se alega por aí, isso não ocorre somente, nem principalmente, pelos custos da telefonia. Sabemos como pode ser inconveniente o uso do telefone em certas circunstâncias, quando consideramos mais polido (menos invasivo) utilizar o SMS ou aplicativos de bate-papo. A popularidade recente do WhatsApp só veio reforçar esta tendência.

Imagino então como seria louca e fora de cabimento em 1968, para um espectador de 2001: Uma Odisseia no Espaço, a ideia de que em 2014 “ainda” nos comunicaríamos por textos, ou pior, nos comunicaríamos preferencialmente pela palavra escrita, ao invés de utilizarmos os sonhados videofones. Na concepção da época, teríamos regredido para modos primitivos de comunicação, paradoxalmente incrustados em máquinas inacreditavelmente avançadas para os anos 60 e 70. Por um outro lado, para nós o futuro pensado em 1970 parece sempre um pouco ridículo, ou charmosamente kitsch.

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* O videofone (como uma tela acoplada ao telefone) existe, porém seu uso não se popularizou, sendo indicado para surdos ou pessoas com problemas de articulação. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Videofone, em 25/08/2014. O caso do interfone com tela pode ser mencionado, mas ele não é utilizado como comunicador no sentido atribuído ao videofone nos antigos filmes de ficção científica.

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