O Centrão fica à direita

por Rodrigo Linhares

O centro, em política, é uma referência abstrata. É tão pouco substancial quanto a linha fronteiriça que separa um país de outro. Pode-se estar aqui, pode-se estar lá. Em algumas ocasiões pode-se, inclusive, saltar de um território a outro – ou manter, ao mesmo tempo, um pé aqui e outro lá. Só não é possível equilibrar-se sobre essa linha.

A possibilidade de ocupar, de se estabelecer no centro do espectro ideológico da política, se plausível fosse, exigiria de nós a admissão de que deve haver, para cada um dos dilemas humanos, a oportunidade para um acordo em que nenhum dos antagonistas precisaria ceder – um ponto acessível em que todos ganham.

Nossos dilemas não seriam exatamente dilemas. Seriam mal-entendidos contornáveis, desvios causados pela dificuldade que um ou outro dos contendores, ou ambos, têm em saber realmente o que é melhor – o melhor para si e o melhor para o outro (sendo que o melhor para si, neste caso, seria também, forçosamente, o melhor para o outro).

No limite, recolocadas todas as nossas questões da maneira adequada, seria fácil ordená-las a partir do acordo que, em cada caso, é a solução perfeita. Assim como quem reúne argolas em um ponteiro. Bem alinhados os problemas, o centro revelaria um caminho, um sentido – a perspectiva da Razão.

Só que não.

As razões são parciais. Costumam conflitar entre si. Partem de pontos de vista diversos e, em geral, durantes seus encontros, não se acomodam bem umas com as outras. Na vida real, o acordo entre razões diferentes é quase sempre parcial, precário, sujeito a revisões. “Foi o que deu pra ser feito.” O avanço em um dos sentidos disponíveis é difícil de se empreender. Os acúmulos podem ser revertidos.

O centro, em política, é mais uma indicação que um lugar. Impõe-se pela necessidade, pela urgência das soluções, pelos impasses percebidos como onerosos ou arriscados. E, no entanto, é tênue, intermitente.

Ainda assim, os partidos brasileiros, muitos deles, costumam ser apontados como partidos de centro. Persistentemente centristas. Partidos centristas não de hoje, mas de longa data – centristas por vocação. E normalmente essa análise se faz acompanhar de outra, que lastima a inexistência, no pântano político, de contrastes cruciais entre partidos de direita e de esquerda.

Bem, é evidente que os nossos Centrões legislativos não têm se destacado pela tentativa de abrigar, das posições divergentes, somente o que cada uma delas teria de racional – e, com isso, sintetizar o melhor dos mundos. Tampouco os partidos à direita ou à esquerda poderiam, nesse mesmo sentido, ser acusados pelo desvio particularista de se insistir no mau hábito que é, afinal, o costume de rejeitar o melhor pra si mesmo. Aparentemente, portanto, a política brasileira, como no resto do mundo, não se desenvolveu segundo os padrões do pensamento iluminista.

Mas, e então?

No interessante trabalho de Marcos Nobre, Imobilismo em Movimento (Companhia das Letras, 2013), encontramos uma caracterização daquilo que o autor chama – em uma devida homenagem, frise-se – de pemedebismo, o fenômeno que qualificaria a cultura política nacional desde a abertura democrática na década de oitenta.

(a) O Centrão é governista. Está sempre no governo, seja ele qual for. (b) Compõe-se de uma supermaioria legislativa que, ao menos formalmente, garante a governabilidade. (c) Suas lideranças políticas têm a última palavra a respeito do emprego dos vetos; selecionam as matérias que devem prosseguir e engavetam o restante. (d) O Centrão dificulta entrada de novos membros, de maneira a tentar preservar e aumentar o espaço conquistado. (e) Atua bloqueando os oponentes ainda nos bastidores, evita o enfrentamento público e aberto.

Nenhum elemento programático é mencionado entre as características do pemedebismo. Não à toa. “Sob o pemedebismo, o exercício cotidiano da política não tem a ver, primordialmente, com ser favorável a estas posições ou partilhar de uma visão determinada do que deva ser o país.” Não cabe aqui uma análise de significados, mas uma análise formal.

O Centrão pemedebista soube tornar-se indispensável. Aparentemente, sua máquina eleitoral, ramificada por todo o país, é necessária a qualquer governo. Com a velocidade dos processos políticos controlada pelo seu sistema de freios, os partidos pemedebistas acenam com a ameaça do impasse permanente. Cobram recursos, cobram cargos – e os reinvestem na ampliação e reforço do pemedebismo.

Liderar o pemedebismo pela direita (como nos governos FHC) ou pela esquerda (como no governo do PT depois do mensalão) – até que alguma ruptura se desenhe, afirma Nobre, estamos condenados a isso.

Mas soa estranho. A técnica de gerenciamento político do Centrão rentabiliza a produção de acordos, explora o centro, mas tem em si qualquer coisa de extrema. O Centrão não é centrista. O pemedebismo converteu o significado do conservadorismo político em uma forma vazia – um gesto, sem dúvida, radical. E ainda que não se declare abertamente a favor da manutenção das desigualdades, assim age, silenciosa e despudoradamente.

Não é exatamente a governabilidade que os partidos, digamos, mais ideológicos, à direita e à esquerda, negociam com o Centrão. São os termos da rendição. O Centrão não é centrista. O Centrão fica à direita. Uma direita inercial, reativa, extremista sem ser ideológica.

O Centrão é a vitória da direita.

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