Jornadas de junho − a crise da representação – a culpa é do mordomo.

por Tony Monti

Quem esteve na rua em junho de 2013 viu que o que coincidia no discurso das pessoas era muito pouco. Não havia unidade, uma voz, um coro, uma orientação, um plano. As interpretações das jornadas de junho que tentaram atribuir ao movimento uma insatisfação específica me parecem descoladas dos fatos. Era evidente que, na rua, o que se via não tinha muita direção, consciência ou intenção. As narrativas sobre o evento, além de contarem sobre os fatos que efetivamente aconteceram, deveriam se perguntar o que é que não aconteceu, o que é que faltou para que o discurso se configurasse.

Me parece, paradoxalmente, reveladora e inútil a ideia genérica de que as pessoas estavam lá por desejo de mudança. Desejo de mudança é o que o bebê quer quando chora: livrar-se de um desconforto, sem saber especificar objetos nem interlocutores e, assim, sem constituir um discurso, uma voz. Quem tentou interpretações para além disso, caiu, na minha opinião, na armadilha de atribuir uma intenção a algo que primou pela grandeza e intensidade, mas pouco pela orientação.

O sujeito coletivo
A voz do povo é a voz de deus, disse o rei. Concordando ou discordando, por motivos lógicos, políticos ou metafísicos, esquecemos de nos perguntar sobre as limitações de atribuir uma voz ao povo.

O sujeito coletivo é quase sempre uma abstração problemática. O eleitor, o manifestante, o homem, a mulher, o negro e o judeu são estereótipos que respondem tanto menos homogeneamente à realidade quanto maior for o grupo observado. As pessoas que caminharam juntas em junho de 2013 eram muito distintas em suas intenções, e não fizeram coros a não ser em momentos muito específicos. Nem todos cantaram os hinos, nem todos recusaram as bandeiras partidárias, nem todos eram contra ou a favor de determinado governo.

A culpa é do mordomo
Uma segunda explicação, ligeiramente mais específica, atribuiu ao movimento uma insatisfação com os políticos e a política tradicional. Escolher os políticos tradicionais como alvo não me parece indício de nenhuma organização. Não há como atribuir culpa a mais ninguém quando se opera em uma lógica simples, segundo a qual o poder está concentrado nas mãos personalistas dos políticos, quando não se reconhece diferenças entre governo e Estado, quando não se mapeia o espaço público com linhas de força mais complexas que um grande pai (governo) que, certo ou errado, decide o destino dos demais.

Acusar o governo, qualquer governo, sem mapear o espaço político, é abster-se de ser sujeito neste espaço. Em uma narrativa em que “A sempre sacaneia B”, B nunca é sujeito. É sempre mais fácil, assim, acusar o mordomo, o suspeito mais óbvio, sem questionar a lógica da culpa nem pensar em um conjunto de forças, em um sistema, responsáveis pelo que acontece. Na lógica em que A e B têm papeis distintos, rígidos e não intercambiáveis, se eu sou B, o culpado costuma ser A.

Lembro de uma chamada para manifestação, anterior um ou dois anos a junho de 2013: amor contra Kassab. Sem uma boa explicação, fico pensando no quanto essa lógica do “amor contra” não é a incapacidade de agir fora de um sistema em que há um culpado único por nossas dores. Sem conseguir pensar de outro modo, produzem-se essas inconsistências involuntárias, eu que pensava que amor fosse a favor. Não sei se um prenúncio, o “amor contra” é pelo menos um antecedente das jornadas de junho.

O grandioso e o violento
O grandioso seduz, dá a impressão de que a história (dos fatos grandes) acontece ali. Estar no meio de tanta gente nos faz querer atribuir motivos àquelas pessoas, individualmente e como grupo, para não sucumbir na pequenez, na solidão ou no absurdo. Foi incrível e bom estar fisicamente em grupo, mas me convence também a ideia de que estávamos, como regra, caminhando juntos por motivos isolados. As pessoas estavam ali, como o bebê ao chorar, reclamando de uma dor que não sabem descrever. Cada um, com suas dores eventuais, brigava contra a civilização inteira, ou contra um sistema invisível, livrando-se fisicamente das neuroses inerentes a viver coletivamente.

Caminhar e gritar foi o encaminhamento violento das dores. Atende-se a uma reivindicação do corpo colocando o corpo em outra posição. Liberta-se momentaneamente das dores, mas essa liberação rápida e violenta é como regra desorientada.

A crise das representações
Uma explicação interessante sobre o movimento diz que a voz da massa pedia uma modificação no sistema democrático representativo, o que tomou formas diferentes em refrãos como sem partido, sem política e liberdade, vale tudo. Duvido que houvesse consciência suficiente sobre o sistema de representação no espaço público, para que ele pudesse ser questionado. O que vi foi confusão entre legislativo, executivo e judiciário, ataques aleatórios a ocupantes de qualquer posição de poder, eleição imediata de inimigos e heróis. É difícil conciliar o desconhecimento do simples com o questionamento do complexo.

A crise da representação, para mim, tem outro fundamento. Incapaz de dizer com precisão o que quer, por desconhecer ou desacreditar o mundo objetivo, o bebê chora e espera uma resposta mágica que resolva seu problema. É uma voz incoerente e egoísta, intransitivamente contra. Algumas coisas são ditas apenas em negativo. Não é uma fala, é a ausência dela. Um mesmo choro para solidão, calor, frio, sono, dor e fome.

A crise da representação é a incapacidade de, a partir do impulso anímico, mapear e formular algo no espaço público. Em grande medida, as pessoas gritaram, mas não formaram narrativa coerente, nem elegeram interlocutores específicos. Falou-se ao vento, e os intérpretes tentaram pegar os fragmentos no ar, como se fosse possível construir uma árvore a partir de pedaços de folhas e flores voando. É como inventar um fundamento organizado no passado para uma confusão no presente: a árvore que a gente tenta montar é mais uma escultura do que uma reconstrução do passado.

A educação pela rua
De política, o que aconteceu foi um aprendizado sobre o espaço público. Ir à rua produz, para o bem e para o mal, a sensação imediata de estar em grupo. Aprendi jogando xadrez: jogar xadrez é bom para aprender a jogar xadrez. Ao mesmo tempo que com dificuldade diziam, as pessoas aprendiam a dizer, a entender a rua como espaço de disputas. Talvez começassem a desconfiar de que em algum momento vai ser preciso se organizar em partidos, ongs ou o que seja para disputar o espaço, que a ordem é tanto opressora quanto a possibilidade de existir coletivamente nos grandes espaços.

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