Escudo antiprivatizador – contra o raio de Satan Goss

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por Abilio Godoy

Com o começo do circo publicitário eleitoreiro nas últimas semanas, fez sucesso nas redes sociais o anúncio de um candidato a deputado que voa como um super-herói por Narcisópolis e combate vilões comunistas com seu raio privatizador.

Tendo sucumbido à curiosidade mórbida de ver o anúncio no Youtube, eu me sinto na obrigação de parabenizar o marqueteiro responsável por sua acertada concepção simbólica do processo de privatização.

Sim, porque o único personagem que conheço que solta dos olhos um raio vermelho com o poder de modificar seus alvos – e não apenas incendiá-los ou destruí-los, como no caso do Super-Homem – é o arqui-inimigo do Jaspion, Satan Goss, que, na sua sanha de submeter a Terra ao Império dos Monstros, faz uso frequente de um raio que “tem o poder de enfurecer os seres e transformá-los em monstros incontroláveis”.

E olha que bacana: é isso mesmo que pregam os defensores do Império dos Monstros Privados. Que empresas e instituições públicas (com ênfase recente nas universidades) se tornem incontroláveis, ou, melhor dizendo, que o Estado abra mão do controle que tem sobre elas e as deixe sob o jugo do mercado.

A ideia é que quanto menos o Estado intervier mais os monstros privados poderão controlar uns aos outros por livre concorrência. Assim, o monstro que prestar melhores serviços ou oferecer melhores produtos pelo menor preço obterá a preferência do público e, como consequência, maior sucesso financeiro. Com o tempo, só os monstros mais eficazes prevalecerão e a competição incessante do mercado fará com que tudo tenda ao melhor e ao mais justo.

Uma pena que o monstro que surgiu na cidade estadunidense de Wilkes-Barre, quando o raio privatizador atingiu uma instituição estatal encarregada de reabilitar menores delinquentes, não viu problema – afinal era incontrolável – em pagar alguns juízes para estenderem as sentenças de jovens que, por seus delitos insignificantes, não deviam nem ser encarcerados. É que no Império dos Monstros Privados mais justo não é o que é justo; mais justo é o que dá lucro.

Uma pena também que os monstros que surgiram quando o raio privatizador atingiu nossas telecomunicações, em vez de competirem pelos melhores serviços, preferiram – são incontroláveis – nivelar o jogo por baixo. Graças a Satan Goss, hoje temos a liberdade de escolher entre a operadora que presta serviços medíocres por preços altíssimos, a que presta serviços ruins por preços altos e a que presta serviços péssimos por preços medianos. É que no Império dos Monstros Privados melhor não é o que é bom; melhor é o que dá lucro.

O que esses exemplos demonstram é que a privatização generalizada, defendida por neoliberais como o candidato do anúncio, é uma proposta enganosa que parece não levar em conta – ao menos no plano da propaganda ideológica – as complexidades mais sujas do capitalismo. 

A maior mentira no projeto do Império dos Monstros Privados é a de que eficácia e excelência sejam os únicos ou principais trunfos no livre mercado. Existem inúmeros atalhos pantanosos para o lucro e, na ausência ou enfraquecimento de um Estado que garanta a vigência de valores independentes do dinheiro, não há nenhum herói de seriado japonês capaz de impedir que os monstros descontrolados devorem como bem entendam os cidadãos indefesos de Tóquio.

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