Fragmento de virtualidade

por Orlando M. Ferreira

Algumas coisas perecem pela virtualidade. É como uma evaporação do suporte material da existência, transposta para o etéreo virtual – a foto, o livro, o disco.

Todas as fotos que guardo nas caixas são antigas. Um dia deixei de segurar fotos nas mãos. Me cerco de livros, mas vejo quadros na tela, não nos livros. Minhas paredes são quase brancas.

Tudo me parece excessivo agora. Excesso de peso para as letras, o papel; excesso de espaço para os livros, as estantes; excesso de vida, o corpo. A máquina contém o livro, o papel e a vida. Impera sobre a matéria desencarnada.

A tela pede atenção: “vem, está tudo aqui.” Onde? “Lá, mais além – sempre – no espaço intangível da virtualidade onde tudo se perde”.

O acesso tem que ser absoluto, total. As portas nunca devem se fechar.

O acesso não é propriamente um contato, é sempre intermediado. Há sempre uma barreira entre eu e o conteúdo – uma tela, um código, uma variedade de símbolos e de caminhos.

Começo com nostalgias. Uma foto, um disco, um livro são sempre mais do que uma foto, um disco e um livro. São presentificações do passado. Agora se tornaram ainda mais do que eram, por denotarem um conteúdo perdido, por serem objetos que atraem pelo arcaísmo (são vintage). Não são antiguidades, mas também perderam a atualidade. Existem como sinal de carências e imperfeições, numa espécie de limbo (o lado de cá) ao qual se opõe o espaço virtual.  

O corpo fala mais do que eles como presentificação. É um supercorpo. Ele se oblitera pela letra no etéreo, e retorna depois, cada vez mais destacado de si. Sou o que se apresenta ao toque e aos olhos. A carne e o signo da carne. Ser é perecer, sempre, à exaustão.

Bachelard elaborou uma poética do espaço e dos objetos. O fogo não é só uma operação química de combustão. Outros atributos simbólicos se sobrepõem às tentativas de controle científico do objeto. A mágica do fogo domina a ciência do fogo. O fogo primordial, a chama dos caçadores, a fogueira onde nos reunimos para conversar à noite, a hipnose da labareda, o conforto da chama crepitante.

Revelo uma fotografia. Decepcionado, percebo que ela não é como as antigas. É uma exceção, um acidente, uma anomalia. As imagens não vivem mais aqui, mas nos programas, nas nuvens. Pretendo trazer para cá parcelas desta existência efetiva, materializar a vida, mas só consigo migalhas.

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