A depressão e outros placebos semânticos

por Tiago Novaes

 fir038

 Os nomes fora do Éden. Não me lembro se foi Deus ou Adão quem, na gênese dos tempos, deu nomes às coisas. No paraíso primevo, o mundo possuía uma correspondência perfeita entre palavras e as coisas. Para nós, caídos, a verdade é outra. Nem tudo tem nome. E em quase tudo o nome atribuído a algo não lhe cai muito bem – uma saia muito justa ou um casaco folgado, um traje que altera as formas daquilo que reveste e deixa nuas pequenas ou grandes vergonhas. Os nomes editam os fenômenos à sua maneira. São um editor da realidade, aplicando filtros, retocando imperfeições ou transformando-as em deformidades.

Somos todos Roberto Carlos. Por falar em edição, já se foi o tempo em que as pessoas faziam caricaturas na praça. As pessoas se divertiam constatando a versão exagerada das próprias desarmonias – o que despontava num rosto ganhava no papel conspicuidade ainda maior. Um nariz se agigantava, orelhas ressaltavam, queixos ganhavam verrugas. Hoje, ninguém se diverte com caricaturas de si. Ao contrário, esforçamo-nos para eliminar qualquer traço disfuncional de nossa versão online. Em questões de auto-imagem, somos todos Roberto Carlos. A realidade é outra fora da esfera pessoal. Basta pensarmos na política, convertida em um jogo de filtros e caricaturas. Para que uma ideia se propague ela precisa revestir-se de inteligibilidade. Transformamos os fatos para que se adequem às palavras. E como andamos escassos de palavras nesta enchente de discursos, transitamos entre a perfeição e a deformidade.

Vazios de sentido. O que são as coisas sem nome, e o que provocam em nós? A pergunta é ousada, mas podemos supor que o que não tem nome é aquilo ao redor do qual orbitam todos os nomes. Quanto maior a quantidade de palavras atribuídas a algo, mais indomável é esta coisa e mais impermeável ao campo simbólico. Pensemos na morte, na dor, no sexo, na beleza, e em como essas coisas são mais que tudo “não-coisas”, buracos negros de sentido, atraindo toda a matéria para um oceano onde a luz vira do avesso.

A infância e a árvore do bem e do mal. A infância é um desses buracos negros, e por isso todos falam sobre ela. Em Charles Dickens ela é a inocência brutalizada na era industrial, a orfandade do self made man. O conflito se dá nesse choque entre o desamparo e a sobrevivência. A infância permanece imaculada em Manoel de Barros. Ali ela é pura inocência. A criança é natureza, é o faz de conta e a poesia lírica. Em Capitães de Areia, de Jorge Amado, a criança preserva o seu encanto e heroísmo, mas os meninos já não são inocentes. São lampiões, michês, assassinos, estupradores. Mas quando o grande carrossel japonês chega à cidade, revela-se no encanto as crianças que são. O faz-de-conta reaparece nas luzes, na “música da pianola (velhas valsas de perdido tempo), ou talvez nos ginetes de pau”. Em Quixote e Bovary, a inocência é desvario, a loucura de brincar fora de hora, de tomar a literatura pela realidade, o nome pela coisa. Já não se brinca de princesa e cavaleiro. E quando a inocência ultrapassa os limites, converte-se em humor, ironia e em ridículo. Quixote e Bovary foram expulsos do Éden, mas se esqueceram de comer da maçã.

Órfãos vs. órfãos. Os que buscam encanto de algum modo preservam um espaço da semente úmida enterrada na terra escura. Tem coisas que só crescem no faz-de-conta, no pacto de eternidade entre pais e filhos. Já para os recrudescidos é preciso endurecer cedo. A inocência é um mal, uma tolice. Melhor que o órfão de sentidos logo cresça e aprenda a se defender da orfandade bruta dos adultos.

Os nomes da tristeza. Dessa anomia entre inocência e realidade surge algo que nos acostumamos a chamar de tristeza. A tristeza é um território sem geografia cujas fronteiras são um campo minado de poder e discursos. O buraco negro da tristeza passa por entendimentos e soluções as mais variadas. Para uns a tristeza é falta de ânimo e de “pensamento positivo”. Podemos controlar o nosso humor como quem conduz um automóvel. Para outros, a tristeza é uma charada, um nó a ser desatado, uma história a ser recordada. Um terceiro grupo o reconhece como karma – a expiação de um pecado, uma sina astral. E mais recentemente a tristeza adquiriu um sinônimo nada inocente: depressão. O assunto foi transferido para a saúde pública, para o trato médico e das indústrias farmacêuticas. Formadores de opinião reproduzem o discurso, convidando os enfermos a sair do armário. O que era vago, impreciso, abismal traduziu-se em código inteligível, e todo um vocabulário e taxonomias foram criados para dar conta de sua infinidade de variações. Tornou-se comum falar em TDA e em bipolaridade, intercambiar experiências com distintos remédios e indicações de bons psiquiatras.

A metafísica dos neurônios. Depressão não é a tristeza. Ela é uma caricatura para que retoquemos a nossa imagem pessoal. A depressão não passa de um nome. Um nome que transporta a tristeza para a metafísica dos neurônios. A ciência médica advoga uma cura orgânica por meio da manipulação sintética, mas não passa de um sistema de produção de sentidos. Pretende encontrar no corpo a raiz do problema, defendendo o caráter objetivo (não subjetivo) de uma elaborada alquimia simbólica. Aquele que se considera acometido pela febre da depressão de algum modo poderá descansar: encontrou-se o problema, e ele é real e alheio. O alívio advém desta dupla legitimação: de um lado o reconhecimento de sua existência em meu cérebro, e de outro, a apaziguante confirmação de que ele não é um problema meu e, nesse sentido, sua solução está além do meu alcance. Não é a minha tarefa resolvê-lo. A depressão, desta maneira, torna-se uma injunção que reconhece e absolve, autoriza e perdoa. É nesse registro que são prescritas as cápsulas tarja preta.

Antipoesia do excesso. Para outros – àqueles cujos sentidos transitaram tanto que acabaram por perder seu poder de aderência às coisas, a anomia da tristeza foi tamponada com outras drogas. A verborragia, o trabalho, a embriaguez, a cocaína e a maconha. O excesso, enfim, mais excessivo quanto mais ineficaz, quanto mais ignorantes de que falta e excesso não se complementam.

Placebos de inteligibilidade. Não padecemos de reminiscências, de disfunções sinápticas, de falta de ligação com o cosmos ou de carência de pensamentos positivos. Padecemos – como todos os homens – do abismo indelével entre as coisas e os sentidos, padecemos de incompatibilidade semântica, e padecemos ainda mais ao ignorarmos o fato de que não se pode preencher algo que não é um espaço. Não é possível iluminar a escuridão. As palavras não bastam para a matéria negra de nossa história, para o hiato entre inocência e ceticismo, entre infância e idade adulta. No jogo entre vento e força da gravidade, seguimos como uma pipa que rodopia, eleva-se, despenca, volta a subir – e para a imprecisão do voo e da queda não há remédio.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s