Apenas mais uma canção de amor

por Tony Monti

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Às vezes, quando alguém descobre que eu estudo e escrevo literatura, acontece de Paulo Coelho tornar-se assunto. O que esperam é que eu dê os argumentos teóricos, literários, para explicar o fenômeno, para dizer o quanto ele é ruim (ou bom). Acredito que a expectativa está mal posta. O sucesso do Paulo Coelho é da ordem do comércio, das lógicas e das ilógicas do vender e do comprar.

Em um país com tão baixo desempenho escolar, de tão precário letramento, o fenômeno dos best sellers tem seus matizes. Uma parte dos livros vira moeda de troca no jogo social. Presente de natal, enfeite na estante, motivo para compor uma imagem mais instruída de si. O livro tende a valer mais como intermediário nas engrenagens do óbvio do que possibilidade de fruição e de transformação.

O recente processo de inclusão social no país pouco esbarrou na inclusão cultural. Na verdade, não sei se é fenômeno apenas brasileiro. Para que serve a literatura?,as pessoas perguntam, e a própria pergunta esclarece em que sistema de valores e significados os desejos das pessoas circulam. A literatura é inútil, e nessa inutilidade é que ela trabalha para tornar o mundo menos miserável, um esforço para fugir da maquininha de moer pensamentos.

É visível, nas escolas e no facebook, que as pessoas leem apenas fragmentos curtos. Leem palavras. Não são capazes de articular ideias complexas, de dar sentido à sintaxe, aos parágrafos, aos raciocínios mais extensos, de fazer as contas e reconstruir processos históricos. Entendem, e mal, apenas a dureza de objetos simples. Se eu digo amor, estou falando de algo bonito. Se eu digo política, falo de sujeira. Não desconfiam sequer de que as palavras têm sentidos diferentes em diferentes contextos e quando ditas por pessoas diferentes. Faça a pesquisa. Escreva palavras soltas em um fundo colorido e coloque no facebook: amor, política, liberdade, coca cola, ecologia, mudança, esperança, amanhã. Como podem, isoladas, as palavras terem tanto lastro emocional, centrando nelas o sentido de textos extensos e deformando os discursos?

É coisa da lógica do quero/não quero, sem nuances nos significados e nos valores. Um mundo sem frases, apenas com palavras. Não fazem sentido as relações entre as coisas. Se uma parte das pessoas não entende os textos, se enquadram os textos partidariamente, rápido, sem outra opção, perdem a possibilidade de criar pequenas diferenças nos próprios modos de pensar. Mantém-se o tempo todo num nível grosseiro, meio ébrio, de pensamento.

Deus. Percebe? Diabo. Merda. A gente tem que superar a primeira impressão para poder pensar. Quando a gente é criança, o simples fato de falar palavrão já é libertador. Mas estaríamos no nível da palavra ainda. E uma parte dos leitores de facebook  saem pouco deste nível de compreensão. Começam a rir do palavrão, interrompem o mundo por uma comoção abissal diante da foto de um gato. Qualquer gato. O gato dos outros. E esquecem os textos e as extensões.

Eu gosto de gatos. E gosto muito de gatos que eventualmente escrevem frases longas.

Os textos deixam de existir para a maioria dessas pessoas. Amor, alma gêmea, sempre, mudança. São pedaços isolados de sentido. A gente perde, nesses fragmentos, inclusive a ideia de fragmento, de estilhaço, tão cara à cultura moderna. No mundo dos textos sem sintaxe, os discursos simplificam-se em imagens. Quando a gente se entrega a uma imagem, a gente deixa de escutar os conjuntos mais delicados e complexos, as relações do mundo que não se resumem a palavras isoladas e a ideias simples. Tudo se transforma em ser contra ou a favor de algo, em curtir.

A ideia de que livro é livro é livro é livro esquece do que vem entre as capas. Assim como não são apenas de um modo os homens e as mulheres, a usp, os negros, a esquerda e a direita, os liberais, os protestantes, os escritores, os cínicos, os gays, os solteiros, os infelizes, as prostitutas e os alcoólatras, os livros podem ser de muitos modos, e também os amores, as liberdades, as almas, os gatos, os bebês, a macumba, os olhos azuis, a maré alta, a ressaca, os cheiros de comida e os beijos. Mas para isso é preciso às vezes ler as frases inteiras, os parágrafos, entender os fragmentos como frações, perceber o modo como as palavras e as ideias se encaixam umas nas outras em um mundo com mais detalhes.

Desconfio de que essa linguagem pobre se relaciona com a lógica da transformação imediata de tudo em mercadoria, mas quem leria um parágrafo com as palavras paradoxo, capital, mercado, reprodução e autonomia, para mapear um pensamento, sem escolher rápido um lado de uma oposição simples como direita e esquerda, ativo e passivo, arriscar e desistir, criança e adulto, desejar e negociar, estética e mágica, sorte e desgraça, eu e o mundo, Jekyll e Hide, azul e verde, relâmpago e clássico, relógio e borboleta, amor e paz?

créditos do título e da imagem, respectivamente, para
Lulu Santos e
Andy Warhol.

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