Chutando a escada II (mais seis notas sobre a greve na USP)

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Por Fabiana Jardim

  1. Pouco depois de eu ter passado no concurso na Faculdade de Educação, houve a festa de setenta anos de um amigo querido (que foi meu professor), e lá encontrei uma amiga dos tempos de colégio. Formada em História na Unicamp, professora da rede estadual em São José dos Campos, em algum momento da noite começamos a conversar sobre trabalho. Contei a ela da novidade, e ela, apesar de feliz com a notícia, em seguida passou a revisitar sua experiência na licenciatura, criticando de maneira bastante incisiva a formação que recebera – o descolamento entre o cotidiano das escolas públicas e sua elaboração teórica, por assim dizer, nas salas de aula da Universidade. Apesar de estranha no contexto festivo, tentei escutar atentamente aquela fala – não só pelo carinho que tenho por essa amiga, mas por reconhecer o risco real para o qual ela me alertava: ao assumir o lugar de professor, a possibilidade de assumir também uma espécie de isolamento embevecido na identidade crítica do espaço universitário.
  2. Por que o risco real desse isolamento? Em primeiro lugar porque há, inegavelmente, um prestígio associado à posição de professor universitário numa universidade pública. Em segundo lugar porque, ingressando na universidade, o professor se vê tratado com um cuidado e uma deferência que marcam simbolicamente seu novo status no interior da instituição. O título de doutor, que antes talvez não se traduzisse em nenhuma mudança mais clara no cotidiano, agora dá acesso a um lugar social prestigiado e produz sensação de reconhecimento de um valor pessoal. É preciso notar, no entanto, que é sobre as desigualdades de status das funções no interior da universidade que essa dinâmica se assenta: há entre servidores técnico-administrativos e professores uma espécie de gap incontornável. Por isso é que mesmo o professor recém-contratado, doutor 1 pode já experimentar uma forma de tratamento que o inscreve numa rede de relações e expectativas sociais que dá início a seu processo de isolamento e “elitização”: não é pela via dos salários, relativamente baixos em início de carreira, que o professor começa a se sentir pertencente a uma elite universitária, é pela via das mediações simbólicas.
  3. As mediações produzem, portanto, algumas ilusões de ótica. E o risco aumenta conforme se vai “subindo” nessa escala: assumindo cargos, conquistando títulos, alongando o lattes… Como estamos vendo claramente: é bem fina a linha que separa o compromisso missionário com o futuro da universidade da autoritária infalibilidade de quem ocupa, por anos e anos, um lugar socialmente prestigiado donde se enuncia um saber competente; como se as boas intenções de pessoas qualificadas resultassem, necessariamente, em efeitos positivos. O risco do isolamento para o qual minha amiga me chamava a atenção talvez venha daí: de uma vida que vai sendo vivida em espaços onde não existe um “outro” em condições de igualdade para se contrapor a mim. Nas salas de aula, a autoridade está do lado do professor. Nos dia-a-dia, o status muitas vezes protege de uma resposta à altura das falas e ações. E, nos espaços institucionais, ao menos na USP, sua composição cada vez mais homogênea conforme se ascende no nível decisório também vai consolidando espaços protegidos de qualquer alteridade. O “outro” quando aparece, pode ser desqualificado de imediato (pergunte a qualquer um que já tenha estado numa reunião do Conselho Universitário!). Tais espaços, relativamente homogêneos e hostis, encarregam-se de recolocar cada um no seu lugar, por meio de violência simbólica que tem graves consequências subjetivas.
  4. No primeiro “chutando a escada”, meu foco estava em pensar a crise na USP, de que a greve é simplesmente reveladora, nas suas articulações com a relutância da USP em assumir de forma mais consistente o problema da democratização do acesso – não apenas em números gerais, ou criando “cursos de inclusão”, mas encarando também o desafio de acolher distintos perfis nos cursos mais prestigiados. A meu ver, o discurso da USP como lugar de elite – o que a USP realmente não é senão em unidades muito específicas – só cola tanto por conta dessa relutância. Neste texto, porém, meu objetivo está mais centrado em outro aspecto da democratização – a democratização da estrutura de gestão e funcionamento da USP. Pois essa greve também é reveladora da profunda inadequação da estrutura existente para produzir virtudes; ao contrário, ela alimenta vícios que trouxeram a universidade até este a presente crise.
  5. A atual crise e sua forma de encaminhamento colocam em evidência a fragilidade das parcas institucionalidades que, durante muito tempo, foram suficientes para fazer frente a desvarios reformistas mais radicais e voluntariosos. Mesmo que o conselho universitário tenha representatividade limitada, o fluxo dos processos decisórios acabava permitindo a discussão em foros mais heterogêneos (conselhos de departamento, congregações, conselhos das pró-reitorias etc.) e, assim, mais ou menos se garantia a pluralidade dos espaços de discussão. Isso torna lento o processo decisório, por certo, mas funcionava para preservar a instituição das propostas mais aberrantes. Na crise de agora, mesmo esses processos foram atropelados – e, nesse sentido, não é a toa a tensão que passou a envolver os representantes no Co: sem o lastro da comunidade que deveriam representar, ficaram expostos a constrangimentos vários, obrigados a tomar decisões complexas e polêmicas a partir de sua própria compreensão – e num contexto em que mesmo o debate no Co foi abreviado em decorrência da urgência dos temas. Comunidade universitária e representantes no Co sentiram na pele, nas últimas semanas, a profundidade do descontentamento com as estruturas de poder que é assumido na hashtag #nãomerepresenta.
  6. Democratização, em seus vários sentidos, parece ser a palavra de ordem, então, para o enfrentamento da crise (e nisso, vale dizer, a USP nem está sozinha: os limites da democracia representativa estão aí escancarados para quem quiser enxergar…). Por que, então, insistir na ideia do “chutando a escada”? Dessa vez, uso a expressão para problematizar algo que poderia parecer implícito no uso da metáfora naquele primeiro texto: poderia parecer que estou pensando a minha geração de professores em contraposição às gerações anteriores, como se eles também não tivessem brigado por suas condições de trabalho ou em defesa de uma educação de qualidade para a população; como se sua vida acadêmica tivesse se dado de forma lisa e sem tropeços. Não foi isso o que quis dizer, de maneira alguma. Há também na temporalidade e na sociabilidade específicas da greve algo de muito bonito, que é o convívio mais intenso com colegas e a partilha de diferentes experiências geracionais. Naquele texto, o “chutando a escada” atentava para os efeitos bloqueadores de possibilidades de ascensão que podiam se desdobrar das decisões tomadas no calor da hora. Aqui, ele é o reconhecimento de que algo de muito potente aparece quando a gente “chuta a escada” no sentido que dei na resposta à Vanessa: quando as hierarquias são subsumidas no enfrentamento lado a lado dos desafios colocados pelo presente. Pelo reconhecimento, enfim, de que estamos todos na mesma escada-barco. Nós, contemporâneos de nós mesmos por meio da luta, aprendendo a lição de outra hashtag recente: #tamojunto.
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    A primeira parte destas notas: “chutando a escada” (parte I)
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Um pensamento sobre “Chutando a escada II (mais seis notas sobre a greve na USP)

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