Que empresa contrata filósofos? – sobre a greve na USP

por Tony Monti

Estudei muito tempo na USP. Pretendo voltar. Sobre a greve de agora, não tenho nada específico a dizer. Estas notas são sobre o longo processo de disputas políticas que envolvem a universidade.

Há poucos dias, li na imprensa um artigo1 que julgava razoável comparar a universidade a uma empresa para desqualificar a greve. Não ignoro as consequências negativas de tantas greves nos últimos anos. Temo pela identidade dos alunos com a universidade, receio que uma ou duas gerações de alunos tenham se formado sem experimentar a universidade funcionando em velocidade cruzeiro. Só conhecem os semestres remendados por insuficiência de tempo letivo. No entanto, tratar a universidade como uma empresa é operar em uma lógica perversa e falaciosa, segundo a qual os interesses individuais podem por si regular os espaços interpessoais.

Comparar a universidade a uma empresa diz também sobre a disputa de poder que traz problemas àquele espaço. As disputas que correm em torno da USP têm direta correspondência com as disputas da sociedade de maneira ampla. Se tratamos a universidade como um corpo homogêneo, esquecemos que a universidade é um espaço político efervescente. A USP não é uma apenas2, ainda que tenha uma administração centralizada. Quem está lá dentro sabe que as unidades não se entendem como um todo universitário. Para a opinião pública, a USP são os discursos sobre ela que circulam fora dos muros do campus (ou dos campi), produzidos por pessoas interessadas em determinado rumo para a universidade.

No ano passado, fui professor de ensino médio de uma escola cara da cidade. Perguntei a meus 100 alunos que curso eles gostariam de cursar na universidade. Os cursos de Letras, História, Geografia, Ciências Sociais, Filosofia, Biologia, Educação Física, Matemática, Física e Química tiveram exatamente zero interessados. Ninguém, desse grupo da elite econômica da cidade, quer ser professor, por exemplo. Ensino não dá lucro. Pesquisa universitária não dá lucro. As humanidades e as artes raramente dão lucro. A disputa na universidade é também essa, entre as carreiras que formam dirigentes e funcionários para as empresas privadas e aquelas que não interessam. Na minha opinião, as humanidades e as artes, que têm uma inserção difícil no mundo do dinheiro, são importantes para diminuir a miséria intelectual humana, para ajudar a nos pensar como seres pensantes e como bestas que somos. Mas lucro, não, não é o nosso negócio.

Receio também que se crie uma dificuldade de comunicação ainda maior do que a que já existe entre as pessoas que se encaminham profissionalmente por um destes dois caminhos. Há mais ramificações do que apenas estas duas. Simplifiquei para não ajudar o adversário, que não abre mão de ninguém no seu exército que só respeita o interesse de si mesmo, sem negociação. Guerra sem política, ele prefere.

Quem são nossos interlocutores?

Quando acontece uma greve, as disputas locais de poder, internas à universidade, se reorganizam até que uma solução seja encontrada. Em geral, o resultado central da disputa se dá quando uma parte cede dinheiro e a outra volta a trabalhar.

Tenho a impressão de que as greves, além de sua estratégia setorial, de luta por benefícios aos trabalhadores ali na universidade, poderiam pensar em atingir o poder de seus interlocutores mais poderosos: o reitor e, em última análise, o governador. A política de destino de verbas e de criação de objetivos para a universidade não vai ser definida apenas dentro da universidade. Essas questões estão sendo definidas também nas eleições, também nas manifestações de rua e, no que me interessa aqui, na produção de discursos sobre a universidade, no espaço público. É o discurso fora dos muros da universidade que pode arranhar o governador, que pode convencer uma parcela um pouco maior da população sobre a utilidade pública da universidade, para além dos interesses privados e privatistas, e da produção de lucro e de funcionários para dar lucro.

Não é a USP inteira que está em greve. É a porção que se interessa pela construção de um espaço público, que se contrapõe à lógica exclusiva do lucro. É por isso que, tenho a impressão, a disputa política na universidade deve tentar convencer a população sobre os motivos de se estudar filosofia e literatura, porque sobre engenharia e administração os motivos já pululam nos meios de comunicação de maior circulação. Acredito que, ainda que situação improvável, deve-se tentar ocupar os jornais, as TVs e as revistas mais tradicionais, além daqueles espaços por onde essa gente rejeitada já circula, para produzir os discursos que esclareçam algo sobre as questões que vão além do aumento salarial. Assim, caminhando no improvável, um incômodo ao governador seria produzido pela via da opinião pública.

___________

1 O artigo a que me referi, escrito por um “filósofo”, que compara a universidade a uma empresa: Helio Schwartsman, na Folha

2 Um artigo que escrevi há alguns anos, em outra greve, sobre a conveniência, para a manutenção desigual do poder na universidade, de se oscilar entre a lógica de integrar ou separar da universidade na sociedade: USP – notas sobre uma esquizofrenia conveniente

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