Gregório (o outro)

por Tony Monti

Na semana passada eu ia dizendo a alguém que queria entender melhor o Gregório de Matos. Imediatamente alguém me disse “Gregório de Matos é muito chato”, e o assunto morreu.

Mas que Gregório de Matos? Shakespeare, Lars von Trier, José de Alencar, Murakami, Paul Auster, Miranda July e Gregório de Matos não nos chegam sem intermediários. Estão imersos em uma rede de discursos que os tocam, transformam e moldam nossa leitura. Ler Gregório de Matos, hoje, não é apenas ler Gregório de Matos. É ler os poemas e os manuais e as análises e os comentadores, além das opiniões dos amigos, da televisão, das conversas que a gente escuta no ônibus e o que mais houver sobre Gregório de Matos. Gregório de Matos não é Gregório de Matos. Não há um sentido a priori ou um sentido fixo. Gregório de Matos se transforma a cada vez que se coloca outro texto em jogo para dialogar com ele.

O que vale agora, ao ler Gregório de Matos, não é um Gregório de Matos essencial, mas as impressões de pontos de vista distintos, sobre as coisas do mundo, inclusive sobre Gregório de Matos. Gregório de Matos é ao mesmo tempo cenário, personagem, interlocutor, assunto, espírito de um tempo, texto, contexto e motivação.

Há quem leia Gregório de Matos como coleciona figurinhas, para preencher um vazio em um mapa literário. Mas, cada vez mais, lê-se Gregório de Matos, embora se leia cada vez menos Gregório de Matos, para se colocar em campo no jogo Gregório de Matos, para modificar os próprios pontos de vista sobre o mundo em geral e sobre o mundo Gregório de Matos.

Essa reflexão me lembra da etimologia da palavra “estilo”. Estilo, raiz de “estilete”, era uma faquinha para escrever em tábuas enceradas, quando papel e tinta ainda não eram usados. O estudo do estilo, neste sentido, é o estudo das marcas pessoais, o modo particular como cada faquinha deixa marcas na tábua, a interação entre a faca e tábua, o autor e o mundo. Isso me ajuda a pensar a oposição entre o Gregório de Matos objeto e o Gregório de Matos como um elemento nas disputas de pontos de vista sobre as coisas, inclusive sobre o próprio Gregório de Matos – as diversas faquinhas duelando no espaço público.

O principal, vale dizer, é que o que vale para Gregório de Matos, vale para Fellini, Bukowski, gatos, redes sociais, vestibulares, dinheiro, política, amor, pulmões, abraços, pétalas, papeis coloridos, paredes, olhos e esgares, não no sentido em que as opiniões sobre as coisas são infinitamente relativas, mas no sentido de que os significados e os valores das coisas estão em disputa e em transformação.

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