A língua que pensa

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por Orlando M. Ferreira

O que se pleiteia é que leiamos. Ora, geralmente o brasileiro lê, e lê muito. Lemos livros, revistas, jornais, placas de trânsito, nomes de loja, outdoors, convites de casamento, facebooks, twitters, e principalmente os inevitáveis torpedos de celular, chats, messengers, whatsupps, androids, boilers, dumbers ou qualquer outro barbarismo que a criatividade impagável da arte publicitária esteja prestes a inventar. Lemos o tempo todo porque deciframos, compreendemos, ou pensamos que compreendemos.

Lemos, mas pensamos no que lemos? Claro que sim, quando está calado até o Frota pensa. Por isso, quando alguém se surpreende falando sozinho e se desculpa pela suposta loucura, respondo que é sinal de inteligência, de que um rico mundo interior quer pular para fora. Se o pensamento se realiza como linguagem, considerar que quem fala sozinho é louco não é muito diferente de dizer que quem pensa é louco. O que seria normal, pelo menos aqui em São Paulo, onde o pensamento é considerado perigoso a ponto da direita pleitear a extinção das aulas de Sociologia, Filosofia e História.

Mas creio que me perdi. Ah, sim. Então estamos de acordo a respeito da leitura, que todos nós, até os mais analfabetos, lemos; e que lemos até pensamento (pelo menos cada um lê o seu, ou deveria).

Chegamos então ao antro mais profundo do problema. Se até o humano mais iletrado lê e pensa, o que falta para que possamos nos considerar uma nação plenamente letrada, no sentido em que ler deveria ser alguma coisa mais do que juntar letrinhas, fonemas e sentidos, ou interpretar códigos visuais e sonoros? Eu chamo isso de ler a linguagem, quer dizer, quando ouço, penso, ou leio, tento pensar no que ouvi, pensei ou li. Sim, isso é um lugar comum. Mas não me refiro somente à “interpretação” do texto. É preciso considerar que, como dizia o poeta, existe algo de profundamente engraçado na linguagem, que ela não diz propriamente o que pensamos dizer, ou pretendemos dizer, mas sempre diz algo mais que escapa à nossa intenção.[1] A linguagem tem vida própria, existe à parte de nós e tenta comandar nossos pensamentos. Estamos tão imersos nisso desde que nascemos, que esquecemos que a linguagem é um jogo de convenções, sentimentos, crenças, intuição e preguiça.

Há uma fé assumida na linguagem e no sentido, fé absolutamente humana, um artifício da humanização, se me permitem falar bobagem. Ler, no sentido do termo ao qual convido o leitor a refletir, requer a suspensão desta fé na linguagem, ao menos por um momento. Não é fácil, admito. Mas a operação se assemelha com a brincadeira do garoto que repete teimosamente uma palavra até perceber, surpreso, que gastou o sentido, que ela se tornou estranha, uma mera sequência de sons que não se referem mais ao objeto que antes designavam. Eis o primeiro passo para a verdadeira alfabetização, e o pressuposto para qualquer ambição de liberdade linguística.

Por outro lado, a crença profunda na fala, que toma por realidade os símbolos que designam as coisas, acaba tendo consequências funestas.  O poeta alemão Schiller escreveu certa vez a respeito da “língua que poetiza e pensa por ti”, que ”conduz meu sentimento, dirige a minha mente, de forma tão mais natural quanto mais eu me entregar a ela inconscientemente”.[2] A coisa fica patente quando pensamos em termos que são investidos de uma forte carga ideológica.

Na época da ditadura, quando eu era criança, “comunista” era um palavrão terrível, tinha um conteúdo que não compreendíamos bem, era algo sujo, perigoso, porém indefinido. Uma coisa semelhante acontece com a palavra “bandido”. Quando lemos na imprensa que os “bandidos” foram presos, não se trata jamais de uma declaração objetiva e imparcial, como o jornalismo sustenta. Ela cobra nossa fé. É como se a pessoa designada, culpada ou não (isso realmente não importa aqui) fosse vestida com o casaco linguístico da “bandidagem”. Porque estamos educados pela linguagem, pela língua viva, a compreender a palavra de uma determinada maneira. Palavras deste tipo me trazem à mente a imagem de uma locomotiva que arrasta uma infinidade de vagões – outras palavras, valores, imagens,  construções ideológicas inconscientes. Por exemplo: “o bandido facínora que espreita na noite prestes a atacar uma família ordeira e pacífica; o ladrão que se aproveita do trabalhador que ganhou o dinheiro com o suor do rosto; que merece ser linchado porque a justiça vai soltar; o sujeito que não trabalha porque é vagabundo e drogado”; e no mais das vezes remete ao “preto pobre que vive na favela, perigoso à espreita do branco”. E por aí vai. Outra palavra é “crise”. Periodicamente ela reaparece e volta a nos assombrar. Pois sabemos que “a crise é um horror, a crise remete à desordem, à penúria, ao descontrole, à inflação; crise é terrível, é uma doença, uma mácula, tem que ser evitada a todo custo, é sinal de má gestão, de incompetência, de desmando”. E então lemos em letras garrafais no jornal do dia: “USP em crise”. O que são afinal essa crise e esse bandido, além do que a língua nos oferece na sua imediatez?[3]

Por isso digo que para ler é preciso antes desaprender a ler. Porque o bandido designado pela palavra “bandido” não está realmente lá. Assim como não existe o “corrupto”, a “crise”, o “vândalo”, o “baderneiro”, nem a “política”, nos quais as palavras querem nos fazer crer. Porém, ao designarem as coisas, ao deformarem o real, as palavras reconstroem o que designam; convidam à ação, reconfigurando a realidade segundo sua pretensão significante. Enquanto isso, nossa identidade e história, o sentido preciso de nossas vidas e lutas são deformados ou destruídos. São apagados pela linguagem vil que bombardeia nossos olhos e ouvidos sem cessar. E se damos fé demais às palavras, acabamos contribuindo para isso, desempenhando os papéis que a linguagem nos impõe.[4]


NOTAS:

[1] Novalis. Pólen: fragmentos, diálogos, monólogo. São Paulo: Iluminuras, 1988, p. 195.

[2] Victor Klemperer. LTI: a linguagem do Terceiro Reich. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009,  p. 55.

[3] Seria de grande proveito listar as palavras pensantes referentes ao momento político atual. No topo despontariam “corrupto”, “vândalo” e “baderneiro”. Por convidarem à fé, à entrega à “língua que pensa por nós” é que essas palavras são as preferidas da TV, da imprensa e da publicidade.

[4] É digna de nota a lógica linguística (e ideológica) que rege hoje a Universidade, com destaque para os termos “produção”, “produto”, “capital humano”, “sucesso”, “vencedor/derrotado”, e seus congêneres, relacionados com um ideal empreendedor típico do marketing, que valoriza o senso de oportunidade e a esperteza numa realidade tida como a da jogatina.

Ilustração:  Paul Weber, Der Schlag ins Leere / O golpe no vazio (1933).

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2 pensamentos sobre “A língua que pensa

  1. Orlando: muito bom esse texto-convite a deixarmos um pouco de lado a palavra-pátria e não perdermos o sentimento infantil de sermos récem-chegados na linguagem. É desconfortável, mas um desconforto que pode produzir efeitos importantes para o pensamento.
    (E é muito interessante que, nesse fogo-cruzado de sentidos, a impressão que a gente tem é que as pessoas perderam mesmo a capacidade de ler, não? Mas não no sentido ‘ético’ que você postula, mas no sentido de que – tão em casa na linguagem – mal precisam ler…).
    Um abraço!

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