Direita e Esquerda

por Rodrigo Linhares

Tudo começou a ficar mais esquisito naqueles anos, no apagar das luzes da década de oitenta.

Começou com o surgimento de um consenso básico a reunir teóricos, jornalistas e políticos europeus. Muitos deles, nem sempre com as mesmas justificativas, alegavam que, de fato, a distinção entre direita e esquerda já não existia mais. Ou que havia perdido muito da sua antiga pertinência.

De tudo, o mais estranho era que os argumentos que negavam a existência de uma direita ou de uma esquerda política não eram os mesmos segundo a maior ou menor simpatia de quem os enunciava em relação… à direita ou à esquerda política (!)

À direita, entre o pessoal que, de um ponto de vista global (aliás, data dessa época a obrigatoriedade do uso da palavra “global”, com toda a falsa clareza que ela denota) reassumia o comando, o argumento era o da crise das ideologias.

A crise afetaria todas as ideologias, mas de modo diverso: desmentido integralmente algumas delas – das ideologias de esquerda, tão orgulhosas de suas análises históricas e científicas, não havia sobrado verdade alguma – e confirmando objetivamente algumas outras – que, por isso mesmo, amparadas pelo sucesso da economia de mercado diante de seu concorrente planificador, deixavam o universo das ideologias, elevadas agora à categoria de real natureza das coisas. “Não se trata de ser ou não de direita, mas de admitir o mundo como ele realmente é”.

À esquerda, entre o pessoal que deixava os assentos, era um pouco mais complicado. Não se dizia claramente, com todas as palavras, mas, ainda assim, a coisa transparecia.

Em uma situação de desequilíbrio, de grande predomínio de uma das partes sobre a outra (e deve ter sido assim mesmo naqueles anos de desmoronamento soviético), muita gente até então à esquerda, sentindo na pele as dificuldades de sobrevivência política, não conseguiu evitar o emprego de um último recurso: a desvalorização da dualidade esquerda-direita como maneira de ocultar a própria fragilidade.

A esquerda foi quase que reduzida a pó? “Mas que sentido tem então colocar o problema nestes termos – pergunta-se o derrotado –, se a distinção entre direita e esquerda está esgotada?” E assim, negando-se o qualificativo de “esquerda”, nosso auto-inquiridor personagem nega ao outro o qualificativo de “direita” – isso é possível já que os termos são relacionais – retira o sentido da dualidade e, pode-se dizer, agora sem vencedores ou derrotados, reinicia o jogo.

O livro de Norberto Bobbio, Direita e Esquerda – razões e significados de uma distinção política, foi publicado na Itália em 1994, há vinte anos. (E entre nós, logo em seguida, em competente tradução de Marco Aurélio Nogueira, pela Editora Unesp, em 1995).

Os dois argumentos contrários à pertinência da dualidade – tanto o que se baseia no “fim das ideologias” quanto o que se baseia na negação do termo distante através da negação do termo próximo – estão enumerados, ao lado de outros mais, em uma relação que Bobbio expõe e critica.

São vinte anos de contestações à pertinência do uso das expressões “direita” e “esquerda” na linguagem política. E, ainda assim, estas expressões mantêm até hoje pleno curso. “Todos os que as empregam não dão nenhuma impressão de usar palavras irrefletidas, pois se entendem muito bem entre si.”

São vinte anos esquisitos. E, das esquisitices, a menor delas talvez nem seja esta – a de que os argumentos que contestam a dualidade direita-esquerda, ao se distribuírem entre os preferidos de uns e os preferidos de outros, acabam repondo, em seu conjunto, os mesmos termos que esperariam ter refutado em suas versões particulares.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s