Falando, em vez de calar

por Fabiana Jardim

O tema está na ordem do dia: por conta da aproximação do dia 28 de setembro, Dia latino-americano e caribenho pela descriminalização das mulheres e legalização do aborto, mas também por conta de duas mortes recentes, trágicas, de mulheres desaparecidas e mortas durante a tentativa de abortar. Demorei para finalmente escrever sobre o assunto e o faço apenas hoje, no próprio 28 de setembro.

A correria da vida contribuiu para isso, é claro. Mas não apenas. Há sempre pudor em tratar do assunto, delicado. Tanto mais delicado porque até hoje a prática é ilegal em nosso país – empurrando o tema ainda mais para os cantos e matando muitas mulheres a cada ano, vítimas de abortos inseguros; ou simplesmente mutilando-as, nos casos em que sobrevivem, mas perdem o útero e a saúde. Delicado também porque nos últimos anos, por conta de diversos fatores que não cabe analisar hoje, o aborto foi reinscrito na disputa político-eleitoral e parece ter aumentado o tabu em torno do tema. Mas a despeito de qualquer pudor, é preciso falar sobre o assunto. Para que Elisângelas e Jandiras (e tantas, tantas outras que não chegam a ser nomeadas) não morram por não poderem ser acolhidas em sua decisão de interromper uma gravidez.

Pensei tanto por onde abordar o assunto. E aí me lembrei de um texto tocante que tinha lido há algum tempo, no Blogueiras Feministas, Porque filmei meu aborto. E de uma entrevista no El País, que também já tem algum tempo, mas que voltou a circular recentemente: O mesmo amor com que se faz um parto se faz um aborto.

O primeiro é o relato de Emily, conselheira em uma clínica de abortos nos Estados Unidos. É bonito como ela passa da fascinação pelo trabalho de doular partos para a compreensão de que há outros momentos em que uma mulher também precisa de apoio e cuidado e que um aborto é um desses momentos. Como todo militante sempre tentar lembrar a seus interlocutores: nenhuma mulher faz aborto feliz e contente – ninguém é a favor do aborto; o que somos a favor é de que o aborto seja legalizado e que, desse modo, aquelas que decidirem por isso não tenham suas angústias e sofrimentos aumentados pelo fato de realizar um crime, de forma muitas vezes insegura, sem saber o que esperar porque o assunto é silenciado por todos. Emily decide, então, se deixar filmar durante seu aborto, para dizer com todas as letras que o procedimento é seguro e que não precisa ser um filme de horror. Pois mesmo num país onde o aborto é legalizado, as pressões sociais e morais ainda pesam sobre as mulheres e suas decisões.

O segundo texto é uma entrevista com um médico brasileiro, que realiza abortos clandestinos. Suas falas escancaram a perversidade dos efeitos desiguais da criminalização do aborto: bloqueado como direito e como serviço público, as desigualdades socioeconômicas fazem com que as maiores vítimas dos abortos inseguros sejam as mulheres pobres, das quais mais da metade é negra. Aquelas cujo corpo também não é bem tratado com respeito e amor se estiverem grávidas (basta dar uma procurada nos inúmeros casos de violência obstétrica, por meio da qual classismo e racismo dizem “presente” nas salas de parto), têm ainda menos valor quando tentam abortar. Os números das que morrem são altos, 30.000 mulheres por ano (conforme o médico entrevistado). Mas parece que suas vidas não contam – subcidadãs que são, desde o nascimento; sua pobreza reafirmada na falta de condições de decidir.

Lembrei-me dos dois textos, assim, em relação, porque ambos falam de uma dimensão importante: a possibilidade de uma medicina que contribua para mudar o lugar do corpo feminino em nossa sociedade. Uma medicina doce, capaz de acolher e cuidar e, assim, trazer poder à mulher em momentos que só ela experimenta em seu próprio corpo – como o aborto, provocado ou espontâneo, ou o parto. Uma medicina capaz de empatia, que se abstenha de julgar o valor e a sexualidade de uma mulher para reconhecê-la como adulta, capaz de decidir por si mesma (e não invisibilizando-a como “puta” ou “mãezinha”). Para começar a caminhar nessa direção, é fundamental trazer o aborto de volta para o campo da saúde pública e bancar a decisão de se adiantar aos costumes, legalizando-o. Pois legaliza-lo não é atentar contra a consciência de ninguém – é simplesmente anunciar em caixa alta que a vida e as escolhas das mulheres devem ser protegidas. É o mínimo, mas esse mínimo não tem sido garantido.

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