Considerações retórico-metafísicas sobre a política na prática

por Tony Monti

Eu sou Dilma. Acho grosseiro votar Aécio. Considero grosseiros os motivos da maioria dos que votam nulo. Não todos. Eu votaria em outra pessoa, se outras opções houvesse.

“Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é a tentativa de colonização do outro”. A reflexão do Saramago me leva a pensar nos inúmeros temas sobre os quais falamos, falamos, sem sairmos do lugar. Alguns destes temas estão fincados em crenças profundas e firmes, que nem sequer sentem, que não se movem, a despeito dos ânimos envolvidos na superfície dos diálogos. Parte dos nossos modos de pensar, senão tudo, está baseada em repetições involuntárias de procedimentos de ação ou de fala. Não mudamos de opinião facilmente sobre as profundezas. Podemos escovar os dentes, usar fio dental, mas o grosso da civilização ou de nossa desumanidade só muda (é extraída) com boticão, sangue e mucosas expostas.

Estou sendo simbólico, percebe? Ou será que estou falando de sangue mesmo? Sigamos o caminho do discurso e dos preconceitos. Não é incomum que, depois de muita conversa, eu chegue à conclusão de que meu interlocutor fala outro idioma. E de fato fala. Se não nos entendemos é porque ele enraíza as palavras, que na superfície são as mesmas, em outras convicções. Tenho um prazer estético, embora um desprazer pragmático, quando uma pessoa conclui, por absurdo, o contrário do que o que seus argumentos, na minha opinião, dizem. Prazer com o absurdo. Desprazer com as conclusões.

A comunicação é algo muito delicado. As palavras são tábuas soltas em mar revolto, ancoradas sabe-se lá onde, ligadas umas nas outras por fios inauditos. Freud descreve como ato falho aquela revelação involuntária de uma crença ou uma vontade. Tenho a impressão de que nossa comunicação é assim cheia de atos falhos, de desejos mal expressos, de falsos entendimentos. Raros e miraculosos são os momentos em que, pragmaticamente, eu digo e peço sua ajuda para x, e x acontece.

São frequentes também os momentos em que parece tudo, no limite, um absurdo ainda maior, em que as conexões entre os interlocutores são tão sutis que intangíveis. Não se trata mais de falarmos de coisas diferentes porque as palavras estão vinculadas, de maneiras insondáveis, a crenças distintas. Resta bem pouco neste ponto-limite. É quase tudo abismo além da crença (nunca uma convicção) de que argumentar vale mais do que calar-se, não necessariamente para convencer alguém, mas pela ideia quase religiosa de que fazer algo, existir ativamente, produz melhores efeitos do que a inércia, ainda que as palavras e as coisas possam ser ilusões. Etimologicamente, abismo significa “sem fundo”. Neste ponto, prefiro tampar o precipício com a ilusão de que eu existo, produzir um fundo imaginário, que dificilmente será verdadeiro, uma crença que, apesar de tudo, me conforta mais que seguir em queda livre. Um instante de religiosidade. Fora isso, ninguém sabe em que vícios estão ancoradas as virtudes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s