Três coisas que não existem: Piauí, africano e faxineiro

por Tony Monti

ebola

O Piauí não existe, a gente costumava dizer, e não sem alguma razão. Há outros lugares que não existem, assim como são invisíveis os rostos dos funcionários da faxina. A África é um continente inteiro esquecido. Há décadas, a Aids é uma epidemia. O Ebola é a novidade perigosa da vez. Os telejornais falam da infecção de um americano como se ele estivesse em quarentena por ter ido a Marte (um lugar desabitado, suponho), não à África.

De volta ao Piauí, me desconforta quem cinicamente chama de esmola os programas assistenciais federais. Eles deveriam ser maiores, não?, para os caras terem banda larga, não?, para os caras terem cinema e livros, não?, para que o Piauí exista. Ou então que se declare abertamente, como fez o candidato Fidelix na TV, que somos nós contra eles (ou eles contra nós), em clara manifestação de desacordo com qualquer suposta fraternidade humana.

Entendo, embora discorde, o argumento liberal de que a livre iniciativa produzirá a igualdade. Há sinais de que não é assim. Este best seller do francês Piketty parece nos dar argumentos numéricos, como gostam os humanistas contabilistas. Mas, abertamente, tratar o cidadão americano possivelmente infectado com o Ebola de modo tão especial, em relação aos milhares de mortos na África, é perverso, mesmo para o contabilismo mais ortodoxo.

Do mesmo modo, dizer que os 70 reais do Bolsa Família produzem preguiça é desumano. Tenho vergonha e medo desse egoísmo. Entendo o desacordo entre os que se agarram na liberdade e acham que a igualdade talvez venha depois, contra os que se apegam à igualdade, que gradualmente produziria a liberdade possível. Isso é política, isso me parece uma discussão quase honesta. Mas há uma parcela dos que dão opinião na rua, na tv e na internet que ignora a fraternidade (humana), o conceito que cimenta as diferenças.

Perdão, deus, se te pareço religioso.

Enquanto a eleição não acaba, a água (do discurso) não acaba, e enquanto um americano não é infectado, os trajes dos médicos africanos a tratar do Ebola são ficção científica para alimentar algum plano obsceno de imposição de força, pela Nasa, no espaço, ou pelo American Army no Oriente Médio.

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