Perdemos

tuKano
por Tony Monti

Escrevo com alguns dias de antecedência, antes de as hipóteses se enraizarem na história. Adianto a reflexão da derrota, para não cair depois na esparrela de apenas comemorar a mediocridade. Perdemos. Tenho dificuldade de escrever o nome do presidente.

Perdemos por 2% de diferença, o que quer dizer que 49% estão conosco. Mentira. Nas eleições estaduais, as primeiras pesquisas indicavam que a soma dos partidos da esquerda (incluindo o PT) não chegava a 5% dos votos. Não somos politicamente, neste sentido, mais do que 5%.

Em São Paulo, como disse o Tiago Novaes, ao sair na rua, saiba que 80% das pessoas que você encontrar terão votado Alckmin ou Skaf. Os motoristas de táxi, os atendentes na padaria, o garçom que serve sua cerveja gelada, sua professora de gafieira, os skatistas da praça, os ornitólogos e os fetichistas da tabacaria. Descontam-se ainda neste cenário os Russomanos, Tiriricas, Felicianos e a bancada da bala.

Perdemos, na eleição federal, uma pequena inclinação dos rumos do mundo, porque havia algo ali no governo m PT ainda daquela vontade de igualdade que move os nossos. Mas perdemos.

A verdade, no entanto, é que já estiávamos perdendo há algum tempo, ao não encarar e bancar grandes transformações como a reforma política e a reforma tributária.

Já estávamos perdendo quando em junho de 2013 mostrou um Brasil violento e conservador. Que surpresa?

Essa campanha eleitoral começou com junho de 2013, como assunto, porque essas coisas grandiosas, as catedrais e os viadutos, nos agarram o espírito. Mas tudo no fim se resumiu a “vontade de mudança”, que paradoxalmente veio a ser “muda mais”, com a situação, e “manutenção dos avanços sociais”, com a oposição. Mudança nenhuma. Menos que isso. Mudança de mentira. Conservação.

O pobre ganha um dinheiro e fica com raiva do governo que o ajudou, por não o ajudar mais, por não cumprir a promessa do capital, de recompensar os desejos de todos. Algo errado aí. Confundiu a oferta e a promessa.

Nos últimos debates, os candidatos falavam de números, acusavam-se e tentavam garantir a paternidade do que, supostamente, foram nossos dividendos recentes. Eles, Aécio e Dilma, se igualam em muito, dois gerentes de clubes de futebol.

Eleição não é política, ou é muito pouco, eleição é propaganda, mercado. O eleitor quer uma mudança de mentira, cada um que ofereça uma.

Perdemos. Deu Aécio. Mas não foi só isso. Preferiria ter escutado de alguém uma proposta concreta para a reforma política ou para a educação. Ou, pelo menos, que nos debates houvesse seres humanos, como foram a Luciana Genro, coerente e incisiva, e o Eduardo Jorge, carisma puro, socialista num partido de conservadores. O modelo esgotou-se mesmo, e não é reclamação de perdedor, acho. Deu Aécio. Que desse Luciana Genro. Votei Dilma com alguma convicção, mas entendo os amigos que costumavam anular o voto e que, dessa vez, votaram 13 por nojo do 45. Perdemos. Temos perdido há algum tempo. Temos ganhado há algum tempo. Tem gente que é acostumado a ser minoria.

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