Vencemos

por Tony Monti

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[às vezes de longe, às vezes de perto, pode parecer que a gente é mais vermelho]

Escrevo com alguns dias de antecedência, antes de as hipóteses se enraizarem na história. Adianto a reflexão da vitória. Sei o que comemoramos. Entre as opções postas, venceu aquela que escolhe o ser humano antes dos números da economia. Não quero chamar injustamente os números de “frios”. O Estado e a administração pública tratam de coisas enormes, e nem sempre o caminho que aposta no desejo quente é o que produz os resultados esperados. O Estado não é a expressão dos desejos da maioria. Desejos podem ser perversos, individualistas, violentos. Talvez as vontades, algo mais subordinável a uma razão. A política, me parece, é justamente a possibilidade concreta, de fundo abstrato, de lidar com os afetos para grupos grandes, quando a autoridade do pai ou as simplicidades da Lei da casa já não dão conta de alimentar a todos os que dividem o pão à mesa.

Ao mesmo tempo, quando foge do tamanho humano, dos afetos pulsantes nas curvas de cada corpo, o Estado, abstrato a princípio, pode ser pouco. A frieza do Estado depende da confiança e do aquecimento dos afetos dos indivíduos.

Vencemos, 2% de diferença. Isso significa que metade da população não entende o que para nós parece óbvio.

Mas o principal, “vencemos” inclui uma pregunta difícil de responder – que somos nós? O eleitor da Dilma que votou Skaf? O eleitor da Dilma que não anulou o voto por nojo do 45? O eleitor da Dilma que se beneficiou com o Bolsa Família? O eleitor da Dilma que votaria Aécio se ele não tivesse sido arrogante naquele momento específico? Nós vamos comemorar como clubes de futebol, como uma maioria inespecífica preenchida de imensas diferenças?

Nós não somos iguais. A democracia eleitoral é uma forma de igualar os diferentes, o que é bonito, porque constrói um identidade fraternal, naquilo que, para grupos enormes como países, não pode ser mais uma família. “Nós” é essa identidade forjada em pedra dura à base de democracia eleitoral.

No mais, que Reforma Política, que Reforma Tributária, que transformação na educação básica são possíveis? Ganhamos? Sinto falta de um discurso mais entortadinho à esquerda, de menos gerência e de mais vontade (para não me render e dizer “desejo”, o específico humano que não se resume à contabilidade).

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