21sp – entrevistas – Abilio Godoy

Abilio Godoy é mestre em teoria literária pela USP e autor de Plano de Fuga (Prumo, 2013).

1. Abilio, você acha que a literatura traz felicidade?, alivia as dores da gente?

Nem uma coisa nem outra. Em primeiro lugar, acho a palavra “felicidade” um tanto vaga, além de perigosa por poder trazer oculta uma ideologia normativa sobre como deve ser uma vida humana. Prefiro discutir o nível mais primário das sensações e falar em prazeres e dores. Sem dúvida a literatura pode trazer prazeres, que, embora sejam trabalhosos, valem, na minha suspeita opinião, muito mais a pena do que muitos prazeres fáceis. Por outro lado, acredito que o envolvimento com a literatura tende a amplificar nossa sensibilidade e, como sou um pouco pessimista em relação ao estado das coisas, acho que isso implica também uma boa parcela de dor. Mas, se você me perguntar se no fim das contas vale a pena, eu vou dizer que vale, menos como uma convicção lógica do que como uma profissão de fé. Minha crença é a de que na maioria das vezes é melhor saber e sentir do que não saber e não sentir.

2. Nosso país tem péssimos níveis de escolaridade. Você acha que transformações sociais significativas e positivas podem acontecer em meio a uma população que lida melhor com pensamento mágico do que com estruturas abstratas e com política?

A resposta mais sincera que eu posso dar é: não faço a menor ideia. Careço do aparato teórico sociológico para especular sobre isso, mas concordo com a relevância da pergunta. O que posso dizer é que essa “alienação mágica” generalizada me entristece a cada dia. Grande parte das pessoas (mesmo as com alto grau de escolaridade) parece preferir transferir seu poder de decisão aos deuses, aos astros, aos orixás, do que assumir sua liberdade no mundo e a reponsabilidade pelas próprias atitudes. Num dos textos que publiquei aqui, comentei como as pessoas preferem reclamar da sorte do que tentar mudar o jogo. Acho que é para isso que os deuses servem, para serem os dados invisíveis que rolam por cima das nuvens. Para que cada derrota, cada injustiça possa ser entendida como azar. Sei que é uma postura radical, mas para mim o sujeito que pensa a si e os outros em função das vicissitudes dos signos ou das demandas dos espíritos do além está no mesmo espectro (embora no limiar oposto) do que justifica sua homofobia com argumentos religiosos.

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