21sp – entrevistas – Tony Monti

Tony Monti é autor dos livros de contos eXato acidente o menino da rosa, e do infantil Três coisas que eu gostofinalista do Prêmio Jabuti 2014.

[Desta vez, as perguntas foram enviadas por Carolina Peters, a quem a 21sp agradece.]

1. Tony, há muita conversa sobre o fim do papel e das edições impressas. Mas do ponto de vista da produção literária, o que a popularização das plataformas de leitura eletrônicas pode representar?

 Antes de tudo, devo dizer que não costumo ver a tecnologia como sujeito de mudanças (políticas) importantes. As mudanças importantes se dão nos modos de pensar.

 Acredito que o acesso a muitos livros o tempo todo, num tablet, em vez de poucos, numa estante, faz com que a leitura fique mais caótica, que as pessoas leiam muita coisa ao mesmo tempo, em fragmentos, o que não é bom nem ruim, apenas diferente. Outra consequência, talvez a mais importante, é que as pessoas não poderão mais apreciar as estantes das outras quando se visitam.

 Eu não levo essas mudanças intencionalmente para minha produção literária, mas talvez tenha incorporado essa dinâmica de leitura em estilhaços ao que escrevo. Talvez eu não consiga escrever uma história longa nunca mais, porque já não leio livros do modo como lia antes. Mesmo minhas narrativas curtas têm mais de um cenário, mais de uma trama, o que pode um dia ser lido como um efeito dos meus hábitos pouco lineares de leitura.

 2. O baixo índice de leitura entre os brasileiros é uma questão recorrente, apesar do crescimento nas vendas de livros e expansão do mercado editorial. Pensando além da literatura, algumas exposições que vieram recentemente ao Brasil atraíram um público fora dos padrões anteriores, com muita repercussão espontânea nas redes sociais. Entre críticos e estudiosos houve tanto quem vibrasse com o interesse crescente da população pela arte; como quem menosprezasse uma relação apontada como consumo mecânico, sem reflexão. Como você lê esse movimento? (Consumir literatura não é ler, mas é o quê?)

 Acredito que a fruição da arte é transformada pela possibilidade de pensar arte. Em uma população pouco acostumada ao pensamento abstrato, a fazer hipóteses, a entender o desejo do outro como um desejo diferente do seu, a se ver e se entender em grupos maiores do que os que os olhos podem alcançar, a fruição torna-se mesmo fenômeno de massa, comércio, livro, exposição e sabonete.

 Na minha opinião, ter leitores é melhor que não ter; ter exposições é melhor que não ter. Mas isto é olhar para arte como um objeto de coleção, olhar para a leitura como um acúmulo neutro. A possibilidade da arte de ser transformadora é que ela venha acompanhada de reflexão sobre a sociedade e sobre os desejos mais essencialmente humanos. Algo se aprende, inevitavelmente, quando se sai de casa e vai ver Monet. Mas o raciocínio do colecionador está muito aquém do raciocínio do indivíduo que, em vez de colocar o quadro na parede, anda com ele na algibeira.

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