Diversão pós-eleitoral

por Rodrigo Linhares

Acompanho por alto os debates a respeito da regulação da mídia e a respeito da reforma política – os dois temas que têm animado a militância do PT. Na forma como eles se apresentam – excessivamente simplificados, guardando em si um tudo ou nada – parece que vêm, mais que pra qualquer outra coisa, pra cumprir mesmo essa função de dar ânimo ao que sobrou da militância do partido.

É estranho, mas o PT, mesmo no governo, continua discursando como se continuasse a ser oposição. Em parte porque, manejando através de forças que lhe são sempre superiores, sua sensibilidade oposicionista não encontrou ocasião para mudar. Mas também porque, me parece, o pouco de capilaridade que ainda mantém na sociedade civil – e que, em uma campanha eleitoral, pode ser importante, até decisivo – precisa ser acalentado frequentemente com balinhas e bombons, com o sonho de um processo de transformação em ritmo acelerado. Como há sempre a cobrança da tal da “guinada à esquerda” do PT, esse oposicionismo discursivo acaba funcionando de modo a contemporizar expectativas sem ter de desmenti-las. “Espera mais um pouquinho que já chega, já vem chegando…”

A condução da política econômica e de outros assuntos de importância para o governo, e que não suportam esse tonalidade de discurso, é isolada com uma fita. O resto é o refestelo da moçada. E eu não acho que, em tempos bicudos, esse tipo de cautela seja criticável.

Os próximos anos serão difíceis. A gestão da economia terá de se desdobrar na tarefa de apresentar credenciais atraentes para o investimento produtivo, o investimento em intensificação do capital e, ao mesmo tempo, sustentar o gasto com os programas sociais, manter os bons indicadores de emprego e aquilo que temos acumulado em direitos trabalhistas.

As exigências são quase inconciliáveis. Não há um ponto mediano de que alguém possa dizer – “oh, aqui está a virtude”. E o militante emocional não sobrevive bem num contexto desses – dramático, mas sem brilho. Precisa que o seu voluntarismo corra livremente em alguma direção. Com velocidade e grandiloquência. Os dois temas, regulação da mídia e reforma política, vêm a calhar.

Mas, convenhamos, a questão da imprensa ocupa uma centralidade às vezes abusiva. A revista Veja quase que prega apenas aos já convertidos. Quantos leem os editoriais do Estadão? Ao mesmo tempo, convenhamos mais uma vez, muito do clientelismo televisivo Brasil adentro está conosco, é base aliada. Claro, com todos os problemas de um apoio que, como o do Sarney, usa o adesivo do 13 no casaco e, na urna, não consegue evitar o atraiçoamento. Tratar com esses caras deve ser quase pior do que tratar com uma oposição aberta.

Assembléia Constituinte exclusiva para a reforma política? Com os mesmos eleitores que fizeram esse Congresso Nacional que estréia no dia 1° de janeiro?

É um péssimo momento para se pensar em reformas. Os satisfeitos não estão mais tão satisfeitos assim e os insatisfeitos estão furiosos, sonhando em abrir a caixa de pandora dos nossos terrores nacionais fundantes – obscurantismo e sangue. Por isso, quando ouço a Dilma falar em reforma política, ou algum outro dirigente do PT falar em regulação das comunicações (que disso a Dilma não fala) logo penso: “tá bem, já entendi, agora vou brincar aqui no meu canto sem atrapalhar mais ninguém”. Não vejo nisso um chamado às armas. Pelo contrário.

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