PT possível

por Rodrigo Linhares

Em seus extremos, as correntes de opinião do PT repartem-se entre o olor do purismo e o pragmatismo desencantado. Mais à esquerda, entre os puristas, onde existem muitas e inflamadas razões, o senso de oportunidade é sofrível. À direita, em contraposição, o desapego em relação a princípios rígidos tem resultado em um senso mais apurado de sobrevivência.

Como que a demonstrar a validade desse esquema, depois do choque da indicação da nova equipe econômica do governo, alguns já dizem em voz alta: “rejeitamos as soluções baseadas na austeridade fiscal, o problema do superávit primário deve ser encaminhado através da renegociação da dívida”.

Claro, onde a razão é tudo e a oportunidade é nada, o melhor momento é sempre o agora.

Na minha ingenuidade econômica, no entanto, penso que as chances de sucesso na abertura de negociações para a reestruturação de uma dívida podem ser radicalmente diferentes segundo as posições relativas de devedores e credores. Uma coisa é tentar arrancar aos credores concessões e vantagens – ou, falando com franqueza, afrontar o achincalhamento a que nos submetem – apresentando como pressuposto uma contabilidade confiável. Outra bem diversa é tentar fazer isso agora. Imagino essa proposição tomando corpo, começando a ser repetida por jornalistas, parlamentares, pessoas no governo… Ministros são nomeados com esse objetivo. Ato contínuo: rebaixamento da nota do país nas agências de classificação de risco, os juros dos títulos da dívida em disparada. E, no final, estaremos piores que antes.

De outro lado, e talvez seja preciso dizer isso com todas as palavras, o objetivo político de redução das desigualdades, colocado momentaneamente entre parênteses, desacelerado (ainda mais…), deixado em estado latente e menos manifesto, é o elemento que dá sentido à história do PT. É o elemento que justifica a sua existência. É o grão de areia na engrenagem, o resíduo que estabelece algum descompasso na recorrente e desconfortável semelhança formal entre políticas econômicas convencionais e políticas econômicas ainda possíveis para a esquerda – semelhança denunciada equivocadamente pela extrema esquerda como a equivalência pura, intercambialidade entre a direita “que faz o que faz por gosto” e a esquerda “que faz o mesmo que a direita, mas afetando contrariedade”.

É preciso que isso fique claro – e o futuro ministro, Joaquim Levy, parece ter apontado nessa direção – que as políticas de ajuste fiscal não compõem um sádico fim em si mesmo. A pacificação que se espera com o seu emprego – do clima de negócios do país, do debate público – é um pressuposto para o enfrentamento inteligente de nossas questões. Valem enquanto viabilizadoras do projeto de diminuição das desigualdades.

Ou então é melhor voltar a fazer oposição.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s