NÃO VAI TER AJUSTE

por Rodrigo Linhares

O que se depreende da leitura do noticiário econômico – de todo ele, mas, em especial, dos escritos e dos ditos dos economistas não-convencionais – é que não há alternativa. Vai ter ajuste fiscal. E não que houvesse surgido, recentemente, algo como um consenso entre os analistas. Pelo contrário, liberais e heterodoxos continuam a divergir e a duelar. Mas ainda que os pressupostos teóricos de um lado e de outro permaneçam em conflito, com razões muito boas, aqui e ali, ao gosto do cliente, a capacidade de cada uma das propostas em se formular de modo crível e consistente não tem sido a mesma.

A situação dos cofres do Tesouro é de lástima. Exceto para os que acham que isso não é problema, mas solução (“romper com a banca por uma verdadeira independência nacional”), quase todo mundo concorda, mesmo que atribuindo a isso um grau de importância variado, que há sim um desconforto considerável. A nova equipe econômica entra com um receituário cujo apelo é enorme, e não apenas porque pacifica o ânimo dos credores (o que, por si só, é muito relevante), mas porque estabelece uma ligação direta com a experiência que qualquer indivíduo têm do mundo das finanças. “Estourou o mês? O próximo será de mais horas extras, com menos supermercado.”

Logo de início, uma proposta de recuperação fiscal alternativa teria de se virar com a dificuldade de uma explicação que contraria o senso comum da vida econômica cotidiana.

Mas deixemos em suspenso, como se indiferente fossem, as pressões (enormes) do mercado financeiro sobre as economias nacionais e o apelo difuso (difícil de ser quantificado, mas certamente não desprezível) de uma certa lógica de contenção – sem deixar de mencionar como é fascinante que, em uma certa hegemonia de pensamento, tanto o vendedor ambulante de relógios como o presidente do Citibank tenham as mesmas opiniões a respeito da condução dos negócios do Estado.

Ou melhor, consideremos em hipótese uma situação diversa. A partir de agora, banqueiros e todo o resto do mundo que tem contas a pagar estão convencidos da necessidade de uma proposta alternativa de recuperação fiscal: é com mais desenvolvimento que se ajeita as contas públicas. Todo mundo agora concorda. E quem fala em desenvolvimento fala em política industrial. Em uma política capaz de fomentar um tal dinamismo no mercado interno que este projeta sua energia para fora, inaugurando uma inserção não submissa do país (leia-se “uma inserção outra que não a de um simples exportador de commodities”) nas cadeias produtivas mundiais.

Mas com o cofre roto? Como?

Não vale dizer que as dificuldades estão na existência de um complô empresarial, uma greve de investimentos contra um governo que faz tudo direitinho mas erra na cor vermelha da gravata. Melhor se perguntar quais foram exatamente as barbeiragens cometidas até agora.

Também não vale colocar toda a culpa no clima seco e na persistência da crise mundial.

Uma política industrial efetiva… Como? Articulando com os outros BRICS. Hmmm, demora quanto tempo a sedimentação dessa tal contra-hegemonia mundial? Porque tempo, aqui pra nós, conta. Muito. Será que a Rússia sobrevive até lá? Escaparemos ilesos, os emergentes, à declaração de aumento dos juros a ser feita pelo Federal Reserve?

No debate real, porém, as vozes dissonantes parecem reduzidas à defesa de artigos de fé, de generalidades como “é preciso redobrar a aposta e defender o programa que foi vencedor nas urnas” ou “o Estado, como afirma Keynes, tem que ser o agente que antecipa o investimento”. À pergunta simples de o que fariam, os analistas ditos não-convencionais respondem dizendo apenas o que não fariam, pontuando tudo com bravatas voluntaristas do tipo “importa não submeter esta escolha à vontade dos mercados”. Aparentemente não é preciso comprometer-se com um olhar projetivo, preocupar-se com o detalhe – o combate entre pressupostos teóricos é o que importa, e nesse nós já somos vencedores. “É mesmo?” “É sim, olha o tamanho da desolação na Grécia. Foi o que dissemos que ocorreria…” Um tipo estranho de vitória.

Ao que parece, estamos de volta às vésperas da Copa do Mundo.

Meses atrás, utilizávamos o slogan NÃO VAI TER COPA como um marcador que condensava muitas coisas – nós não esqueceríamos das famílias que tiveram suas casas desapropriadas pelas obras e dos mortos nos canteiros, não calaríamos diante do endurecimento da polícia no trato com os manifestantes e das dúvidas em relação à probidade dos negócios.

Mas sabíamos que haveria Copa. Que estávamos derrotados. Que éramos residuais diante das dimensões de um evento mundial. (De fato, fomos levados de roldão. E quando aconteceu, ninguém se surpreendeu realmente.) Mas continuaríamos batendo o pé, fazendo birra. Debochar do inegociável tem seu charme. Era uma ocasião em que podíamos nos dar o luxo de uma irresponsabilidade completa. NÃO VAI TER COPA!

Voltamos ao mesmo lugar. Como se ostentássemos agora, impresso em vermelho, o cartaz do NÃO VAI TER AJUSTE. Porque aparentemente nos desresponsabilizamos da exigência de se formular uma alternativa clara, crível e detalhada. E talvez, não sem algum prazer, estejamos a antecipar o dia em que poderemos finalmente dizer que o ajuste veio, foi feio e não deu certo. Tudo conforme o esperado. Conforme o que havíamos assinalado que aconteceria. Não havíamos dito?

Uma pena, porque o espaço de negociação, ainda que não esteja claro, talvez exista. Essa arrogância é que não ajuda em nada.

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2 pensamentos sobre “NÃO VAI TER AJUSTE

  1. Muito interessante a abordagem. Infelizmente, a maioria não entende que os trabalhos de Marx e Keynes são completos até o momento de suas respectivas publicações. A partir daí caberia aos atuais/futuros pesquisadores e pensadores proporem novas ideias que evoluam as proposições anteriores. Mas isto não ocorreu, pois houve pouca ou nenhuma evolução na medida em que o debate econômico tomou o caminho das discussões de futebol em mesas de bar. Todos tem sua seleção ideal, mas ninguém tem a paciência de estudar a fundo o tema. Em verdade, intuo que a questão não é mais econômica, mas sim de governança. Questiona-se os resultados dos investimentos estatais sem considerarmos na análise o modelo de governança que definiu os objetivos, os projetos, as fontes de recursos, as empresas escolhidas, os modos de licitação e pagamento, etc, etc, etc… O quanto de interesse público tem efetivamente direcionado o investimento público?

  2. Adriano. Oi.
    Escrevi isso depois de ler uma entrevista com o Belluzzo publicada pelo Valor na semana passada. Soube depois, dois ou três dias atrás, que ele também havia sido entrevistado pela Revista Fórum, dessa vez em uma conversa mais longa. E, olha, o Belluzzo deixa mesmo a impressão de alguém que não distribui corretamente as ênfases entre o político e o teórico – ou melhor, alguém que não relaciona bem essas duas coisas. Lembra um pouco a entrevista do Felipão e do Parreira depois do fiasco: nós fizemos tudo corretamente, tudo de acordo com a boa teoria, não temos culpa se a realidade resolveu fugir a isso. Exceto por alguma crítica (de alguém que era tão próximo da equipe econômica anterior, poderíamos até falar em “autocrítica”), o Belluzzo, por um apego apaixonado a certo tipo de discurso acadêmico, parece estar quase a se lamentar que o mundo seja do jeito que é. E enquanto os economistas ditos heterodoxos, como ele, buscam uma discussão de fundamentos – o que é importante, não nego – os outros, convencionais, nadam de braçada em meio a indicadores e tabelas.
    Concordo com sua observação a respeito dos descaminhos da governança. E logo penso, por exemplo, na prática de renúncia fiscal sem critérios (ou com bem poucos), sem acompanhamento e sem a exigência de resultados – o que, na prática, deu em volumosas remessas de lucros para o exterior. É um problema tão grande que dá até medo de saber como as coisas são decididas e implementadas.
    Obrigado pelo comentário.
    Abraços!

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