lembrar o passado, resistir às demandas do presente, elaborar o luto

Por Fabiana Jardim

Sábado passado fomos ao Memorial da Resistência. Fomos, eu e uma colega da FEUSP, com nossas turmas de alunos da Pedagogia. Nos encontramos no metrô e fomos caminhando até o Memorial, que fica no antigo prédio do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops). Caminhar no centro de São Paulo por si só já nos remete às promessas da urbanização de liberdade e riqueza, já que o espaço ainda se encontra carregado da monumentalidade que dava corpo a tais promessas: uma brisa da concepção de cidade, liberdade e progresso ainda corre por ali, na beleza de ferro da estação da Luz, na boniteza do Parque, no estilo de alguns prédios… Nesse sentido (conforme aprendemos com as ótimas educadoras que nos monitoraram durante a visita), o prédio do Deops que  foi originalmente concebido como um armazém de café, ali às portas do trem, representa de forma também bastante concreta o bloqueio às referidas promessas: a manutenção da ordem política e social, num país com dois longos períodos autoritários, passa pela vigilância, repressão, tortura e morte de contingentes da população pensados e tratados como ameaça interna. O armazém convertido em repartição e prisão.

A nossa turma começou numa das salas em que é possível ouvir depoimentos de sobreviventes da ditadura civil-militar. É tocante e doloroso. Para mim, porém, não foi o momento de maior intensidade emocional: eles sobreviveram, afinal, o que significa mais do que preservar a própria vida – podem eles mesmos narrar e nos ajudar a conferir sentido ao passado de que estivemos (as gerações seguintes) ausentes. Como tenho lido muitos relatos de outros episódios de violência estatal, motivados mais por razões étnicas, me chamou a atenção a especificidade das violências estatais por motivos políticos, na medida em que o significado é completamente distinto e a solidariedade aparece como algo esperado e, muitas vezes, experimentado: um dos depoentes afirma “quem não é vocacionado para a felicidade não se torna militante”. E, com isso, faz vazar no presente esse desejo de uma vida outra, desejo tão potente que implica em arriscar tudo em favor de uma vida que mereça ser vivida.

A sala que em mim doeu mais foi aquela em homenagem aos mortos e desaparecidos. Da leitura de K. – Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, e de Poder e Desaparecimento, da Pilar Calveiro, fica clara a importância do desaparecimento como tática de terror: a impossibilidade de sepultar os mortos, de ao mesmo tempo ritualizar o fim e iniciar o trabalho do luto; a expressão da feroz vontade de aniquilar o outro para além de seu corpo. Esta semana lia Judith Butler: a desumanização do Outro que torna possível tirar-lhe a vida em nome da defesa (de valores, de um coletivo nacional) do Um, acaba por complicar o reconhecimento do fim dessa(s) vida(s), postergando indefinidamente o luto. Em outras palavras: ficamos presos ao ciclo de violências por não nos permitirmos elaborar tal luto: há vidas que merecem ser vividas e choradas e há outras que não. Simples assim. Querer chorar a vida do Outro significa se identificar com ele, e isso é insuportável quando ele é tão Outro que nem chega mesmo a ser humano. Quem há de ousar levantar a voz em nome da possibilidade de chorá-lo?

Lembrei-me da fala de uma das depoentes de “Que bom te ver viva” (documentário de Lúcia Murat, de 1989): após a anistia, a pena se extingue, mas não a pecha de “terrorista” e “subversiva”. Alguns sobrevivem fisicamente, mas precisarão de muitas forças para continuar existindo socialmente. Lembrei-me também das manchetes desta semana, que davam notícia de que a França não sabia o que fazer com os corpos dos três terroristas mortos – essa própria perplexidade já indicadora da liminaridade de suas vidas e suas mortes nos interior do que definimos como humano. Felizmente – pois creio que o gesto é politicamente acertado – eles estão sendo enterrados em suas localidades de origem. Discretamente, sem alarde, devolvidos à privacidade das famílias e comunidades nas quais tinham nome próprio e não eram História. Para preservá-los dos riscos do ódio e da heroicização, em ao menos um dos casos se decidiu pelo anonimato. Mas ainda assim é simbolicamente muito importante que eles possam ter sido sepultados.

A pergunta feita pela Judith Butler é fundamental: qual o lugar do luto em nossa cultura política? Me parece que os lugares de memória, em que pela mediação do espaço podemos nos dar conta de compartilhar algo com o passado, podemos escutar a atualidade desse passado e somos incitados a procurar no presente seus ecos e suas marcas, são fundamentais na medida em que permitem nos apropriarmos de uma história comum. À diferença de outras formas de transmissão, os lugares de memória nos convocam de modo ainda mais intenso a assumirmos um lugar específico, que é o da testemunha – conforme sugerido por Jeanne-Marie Gagnebin: “Nesse sentido, uma ampliação do conceito de testemunha se torna necessária; testemunha não seria somente aquele que viu com seus próprios olhos, o histor de Heródoto, a testemunha direta. Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro: não por culpabilidade ou por  compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, somente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar outra história, a inventar o presente” (Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006: p.57. Destaques meus).

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