Pacíficos e Educados

por Rodrigo Linhares

Não é apenas a questão da fragilidade das leis diante dos constrangimentos impostos pelos poderes – a tal da corrupção, como já é hábito papagaiar por aí. É pior que isso. Existe um tipo de material social em que a própria noção de Direito não encontra amparo, em que a engenharia institucional das leis não consegue aderir, não consegue se fixar.

É porque existem requisitos que não estão presentes. Nunca estiveram.

Acho que poucas vezes somos tão verdadeiramente aquilo que somos como quando, com orgulho, envolvidos na bandeira verde e amarela, confessamos que não existe continuidade entre eles – os outros – e nós. Que eles não são tão humanos como nós. Não merecem a vida como nós a merecemos. Brasilidade, pra mim, é isso. Uma coisa mal resolvida que, se entregue somente a si mesma, desanda em algo muito parecido com uma zona de tiro livre. Nós contra eles. Horizontes restritos. Cada um como referência exclusiva de si mesmo.

Acompanhei de casa o noticiário das manifestações de rua em oposição ao governo federal. São pacíficos e educados os que protestam, repetem os jornalistas. Há famílias inteiras. Velhos. Crianças. Alguns deles portam cartazes pedindo intervenção militar. Ainda assim, são pacíficos e educados.

Propor, à luz do dia, que o meu adversário político seja não apenas apeado do poder, mas preso, seviciado e morto, aparentemente, não faz de mim algo diverso de um sujeito pacífico e educado. Passa batido no relato jornalístico. Não causa estranheza.

Isso porque o princípio da identidade, um humano é igual a um humano (A = A), nunca fez muito sucesso em nossa lógica particular. E nisso surpreendemos um dos sentidos que presidiram nossa formação. Não é possível que A seja igual a A sem que, em um nível palpável, o conteúdo de um dos termos seja parente, amigo íntimo, ou de algum modo apaniguado ao conteúdo do outro. O país se urbanizou, as relações políticas são mais complexas – mas continuamos a atualizar esse sentido de exclusão. Diariamente. Cotidianamente. Em diversos aspectos.

Corrupção é, convenientemente, a do outro, sempre. O outro é quem deve ser punido. Militarmente até. Como vingança. Mas não como Justiça. Porque Justiça – que é afinal o que fundamenta, é o que escreve e reescreve o Direito – exige que A seja igual a A. Incondicionalmente, e não apenas quando me convém. É um requisito elementar.

E é aquilo que tanto nos faz falta.

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2 pensamentos sobre “Pacíficos e Educados

  1. Rodrigo, gostei muito do seu texto! Uma colega comentou, falando do panelaço em seu bairro (iniciado antes mesmo da fala da presidenta ou dos ministros ), que pareciam crianças birrentas que tapam os ouvidos; uma completa recusa da escuta. Como se os barulhos altos fossem o equivalente “no real” da possibilidade virtual de “bloquear ou não ver as postagens”. Já eu me lembrei dos “dois minutos de ódio” em 1984, um ritual necessário pelo qual se canaliza em torno de um ou dois rostos todo o ressentimento de uma vida sem liberdade ou sentido… Não estamos sozinhos nesse delírio que se interpõe entre o desejo (inconfessado) de exclusão e uma luta em defesa da sociedade – está aí a Europa mostrando que também não sabe o que fazer quando a justiça social não pode se assentar numa igualdade que não seja também identidade. Mas não estarmos sozinhos não nos desobriga a continuar procurando modos pelos quais a educação não seja mais sinônimo de diplomas, mas sim de acolhimento do dissenso. Abraços.
    PS: quem viu a cobertura pela TV comentou que os jornalistas afirmavam o pacifismo e a educação frente à uma imagem desfocada – para que a a violência das faixas (e de algumas imagens) não revelasse o engodo…

    • Muito obrigado pelo comentário, Fabiana.
      Os relatos que tive da manifestação do domingo foram os da rádio CBN. Fiquei especialmente incomodado com os comentários da jornalista Roseann Kennedy, que, entre outras coisas, protestou contra a divulgação, na internet, de uma mensagem do Ministério da Justiça. O cartaz dizia: “discurso de ódio fere a democracia e não gera mudanças”. E, segundo a jornalista, era uma tentativa do governo de atribuir aos manifestantes uma agressividade que, na verdade, não se observava.
      Ela foi ainda mais longe. A mensagem do cartaz era tão descabida que não poderia ter sido divulgada oficialmente. Foi coisa de um hacker, talvez? Alguém teria tentado colar, criminosamente, uma coisa dessas, um idiotice sem tamanho, ao Ministério da Justiça?
      Mais tarde, o ministro Cardozo – beneficiado por uma dessas poucas ocasiões em que se pode ser intransigente – decidiu recuar e ordenou que a divulgação fosse retirada…
      Abraços,
      Rodrigo.

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