Junho de novo

por Rodrigo Linhares

Alguém já disse isso. No protesto do último dia 15, aqui em São Paulo, a empregada esteve junto com a patroa.

O ressentimento não está apenas entre os que percebem uma degradação relativa em suas condições materiais. Está também entre aqueles que, em movimento inverso, vindos de baixo, talvez já estejam topando com a cabeça no teto. Entre aqueles que se dão conta de que o ascenso efetivamente percorrido teve um fôlego muito mais curto do que aquilo que as expectativas antes prometiam. Entre os que descobriram que a TV de plasma é realmente legal, mas que esse item – o grande centro da vida familiar – acabou perdendo, com o tempo, a sua magia. Se rotinizou. Entre aqueles para quem o diploma de Administração de Empresas da faculdade de bairro, conseguido com esforço ascético e endividamento financeiro, não significou um salto para algo melhor que o atual emprego em telemarketing. Entre os que, guiando o carro recém-adquirido, decepcionam-se com a constatação de que os percursos não se tornaram assim tão mais agradáveis, já que quase todo mundo nas grandes cidades tem de passar pelos mesmos congestionamentos.

Umas pesquisas interessantes confirmaram que, na Avenida Paulista, no dia 15, os manifestantes eram mais ricos e mais brancos. Só que não é absurdo supor que, manejando um discurso fulminante de combate à corrupção (quem é que pode ser contra?), eles se irmanavam não apenas com os mais pobres e mais negros que, em menor número, também estavam ali, mas com a maioria silenciosa das periferias distantes que, pela TV, apenas acompanhava o protesto de casa.

Aprendemos, em junho de 2013, como é possível fazer com que uma única reivindicação se transforme em abrigo para todo tipo de desconforto. Agora é novamente o caso: uma “frente” anticorrupção que tem a capacidade de encaminhar, ao mesmo tempo, críticas vindas de diferentes perspectivas sem que, em algum momento, essas divergências tenham de se haver entre si. É uma multidão que está contra o ajuste, mas que, ao mesmo tempo, reclama da falta de velocidade e indecisão com que ele se realiza. Que está contra o corte de direitos trabalhistas, mas que também se queixa da alta do salário mínimo. Que denuncia o ritmo lento da diminuição das desigualdades, que exige mais recursos para o financiamento estudantil, mas que se enfurece com qualquer pequena concessão feita às custas de nossa rígida estrutura de privilégios.

Antes de se desfazer, vai causar estrago.

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