Control Balt Delete [Tradução]

por Dave Pell

[Traduzido por Fabiana Jardim]

 Cinco reflexões sobre Baltimore organizadas em uma lista. Porque a última coisa que alguém precisa é outro artigo a respeito de Baltimore.

1) Eis algo que comumente se perde na narrativa geral: quando um bairro é esmagado por um ciclo interminável de violência e pobreza e falta de trabalho e escolas de desempenho baixo, as vítimas de fato são os moradores desses bairros. Quando professores e policiais e outros em quem precisamos confiar sentem-se esgotados e tomam atalhos, desistem ou se tornam maus, as vítimas de fato são os moradores que vivem nesses bairros. Quando jovens são mortos pela violência (de gangues, drogas, doméstica, policial), as vítimas de fato são os moradores desses bairros. Quando a mídia aparece, é ainda essa a verdade. E quando percepções públicas falsas são criadas, é ainda essa a verdade. E quando as vidas reais das pessoas e suas experiências cotidianas se transformam em teatro político, é ainda essa a verdade. E, siga-me ainda aqui, quando revoltas explodem nessas vizinhanças, as vítimas de fato são os moradores desses bairros. Percebe uma direção aqui? Acredite ou não, é uma direção muito frequentemente ignorada.

2) Eu dava aula no ensino médio [high school] em uma das cinco piores escolas no Brooklyn. Um pouco depois, escrevi uma dissertação de mestrado sobre o uso dos detectores de metal nas escolas. Retornei à minha antiga escola e apliquei uma enquete com estudantes, professores e pais sobre a segurança da escola. Aqui vai a resposta esmagadora que encontrei. Em primeiro lugar, toda criança na escola sabia que o detector de metal era falho e lhes oferecia pouca proteção. Os caminhões carregando a equipe e os equipamentos detectores de metal apareciam uma vez por semana, estacionavam bem em frente à escola e iam embora após o primeiro período [de aula]. Esta era a segurança extra que a escola conseguiu. Em segundo lugar, quase todas as crianças da escola ainda queriam o sistema funcionando. Eles sabiam que ele oferecia pouca segurança extra, mas o queriam ainda assim. Crianças vivendo em bairros violentos não querem menos polícia e menos proteção: elas querem mais de ambos.

3) Não simplifique demais o papel da polícia nessas situações. Devemos demandar justiça quando a polícia especificamente ou sistematicamente abusa das pessoas? Com certeza. Devemos agrupar todos os policiais e a profissão em geral nesse monte? Claro que não. Nós celebramos os caras quando eles correm para os edifícios de que todos estão fugindo. Eles têm um trabalho reconhecidamente duro pelo qual são selvagemente mal pagos. A sorte e os recursos tornam muitas de suas metas inalcançáveis. Sim, nós precisamos ser capazes de confiar neles, então quando eles quebram (ou destroem) esta confiança, justiça precisa ser feita. E sim, a polícia em nossos bairros mais violentos tem um trabalho difícil, ingrato e perigoso que com frequência falha em recompensar aqueles que exibem os melhores traços que poderíamos desejar. Ambas as coisas são verdadeiras. Isso é uma parte do que torna este um problema tão difícil de lidar e compreender.

4) Não ocorrem muitas prisões e condenações nos bairros pobres. Ocorrem poucas. A lista de assassinatos sem solução nos bairros difíceis é um fator chave que leva à desesperança, sentimentos de desimportância, e finalmente a mais “ausência de lei”. Se queremos de fato corresponder [ao significado da] frase Vidas negras importam, temos que identificar e punir aqueles que acabam com essas vidas. Para um panorama do tema e um olhar sobre as vítimas e policiais (bons e maus) em uma das áreas mais violentas, recomendo vividamente Ghettoside by Jill Leovy. Eis uma citação do livro: “Onde o sistema de justiça criminal falha em responder com vigor a ferimentos violentos e mortes, o homicídio se torna endêmico… O fracasso do sistema em capturar os assassinos efetivamente faz das vidas negras algo barato”.

5) Finalmente, um breve “causo” do passado, de quando eu ensinava literatura afro-americana naquele ensino médio no Brooklyn. Um dia, quando a turma discutia Native Son, de Richard Wright, tivemos uma estudante, vinda de Los Angeles, em visita. Durante a minha carreira de professor em Nova Iorque, essa foi a única vez em que eu não era a única pessoa branca na sala de aula. Havíamos chegado ao ponto, no romance, quando Bigger Thomas, a personagem central, havia cometido seu segundo assassinato e estava se escondendo da polícia num prédio de apartamentos, em Chicago. Comecei a aula com a seguinte questão: se você morasse no bairro em que Bigger Thomas estava se escondendo e você soubesse de sua localização, você contaria à polícia? A questão disparou um debate acalorado na sala de aula. Um terço dos estudantes disse que não entregaria Bigger Thomas para a polícia porque o sistema de justiça era muito enviesado e Bigger nunca teria um julgamento justo. Outro terço da sala explicou que se sentiriam obrigados a entrega-lo à polícia porque, independente das falhas do sistema de justiça, assassinato é moralmente errado. Os demais estudantes explicaram que eles também delatariam Bigger Thomas à polícia, mas por motivos mais concretos: eles não queriam ser as próximas vítimas. Uma pessoa violenta nas ruas simplesmente aumentava as chances de ser morto. Então perguntei aos alunos quantos deles haviam sido vítimas de um tiroteio ou conheciam alguém que fora assassinado. Todas as mãos da sala se levantaram. Ao final da aula, nossa visitante de Los Angeles se aproximou de minha mesa para me contar que sua turma avançada de inglês tinha acabado de ler a mesma novela. Ao longo das duas semanas que dedicaram ao livro, nem um único tópico que acabáramos de discutir apareceu. Ela disse que se eu perguntasse a mesma questão inicial para sua turma, todos os estudantes diriam que entregariam Bigger à polícia. Eles inclusive teriam pensado que a pergunta era uma piada. Todos esses acontecimentos – e a cobertura deles – podem ser percebidos de modo inteiramente diferente através de diferentes conjuntos de olhares. Esqueça [aquela história] de calçar o sapato dos outros por uma milha. Sequer enxergamos os mesmos significados nas palavras que lemos em uma página.

Original aqui.

Nota da tradutora: para quem quiser pensar as mesmas questões no contexto brasileiro, na Região Metropolitana de São Paulo – Jaime Amparo Alves. Necropolítica racial: a produção espacial da morte na cidade de São Paulo.

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