A incredulidade implacável dos dentistas

por Abilio Godoy

Eu ia chegar atrasado para a consulta. Por conta de problemas técnicos na linha verde, o trem estava parado havia vinte minutos na estação Brigadeiro. Não gosto de me atrasar, ainda que, neste caso, a culpa não fosse minha. O que me afligia mesmo era como convencer minha dentista da veracidade da desculpa. Sem dúvida pareceria muito conveniente uma pane no metrô quando eu me atrasava para um compromisso logo de manhã. Perdeu a hora, é?, seria a pergunta que ela me faria à queima-roupa; eu lhe relataria o problema e, desconfiada, ela fingiria por educação que acreditava. Apesar de inocente, eu não poderia fazer nada. O que se esquece sobre o Pinóquio é que também sabiam quando ele dizia a verdade.

Cada vez que encaro essa consciência aflitiva de que não acreditam numa verdade que digo, penso que muita coisa seria mais fácil se a gente não mentisse, ou, pelo menos, se a mentira não fosse tão banal em Narcisópolis. Sim, eu sei que pareço ingênuo, que nem sempre as fronteiras da verdade cabem numa linha, mas não me refiro a questões filosóficas. Estou falando de culpar o trânsito quando você perdeu a hora ou de mentir para o seu namorado sobre seu paradeiro na noite passada. Aí vão protestar que há mentiras e mentiras, mais ou menos graves e com boas ou más intenções. Não discordo, mas também não deixo de ver em todas elas uma opção questionável por driblar o que se reconhece dos fatos e, embora alguns argumentem que esse é um cimento social necessário, prefiro acreditar que existem escolhas e que podemos ter uma postura mais crítica em relação aos engodos que criamos.

Afinal, não fosse por eles e não haveria tanta desconfiança, tanta insegurança, tanto ciúme, tanto desapontamento. E nem tanta necessidade de juras e promessas; de contratos, declarações e atestados. Não faz muito tempo saí com uma menina que me provava tudo por multimídia. Mesmo eu dizendo que não precisava, ela compartilhava sua localização por GPS e me mandava capturas do chat com sua chefe, para assegurar a veracidade das suas desculpas. É que já não existe honra em Narcisópolis e, na falta de deuses que nos endossem, hoje juramos pelos nossos smartphones.

Foi pensando nisso que há uns dois anos decidi tentar um experimento social. Em nome do Spock, dos samurais e dos houyhnhnmns, quis ver se era possível enfrentar essa convenção narcisopolitana e tratei de eliminar toda mentira deliberada do meu discurso. Sabe aquela mentirinha branca que a gente conta para poupar alguém de uma verdade cruel, ou aquela distorcida que se dá nos fatos para aparar uma aresta constrangedora? Pois é, não posso. E, passado esse tempo, juro (embora muitas vezes já não precise) que sinto que não perdi quase nada com isso. Claro, fui chamado de radical quando um amigo me ligou para ver se eu encobriria sua pulada de cerca, e magoei um pouco minha ex-namorada quando ela me perguntou se eu achava a atriz do seriado mais bonita do que ela. Mas, aos poucos, tanto essa mesma ex-namorada como outras pessoas próximas passaram a gostar da brincadeira e as ações da minha palavra logo dispararam na bolsa.

Minha dentista, entretanto, não sabe do meu experimento e apresentá-lo naquela ocasião em que ele tanto me convinha poderia parecer ainda mais suspeito. É que uma promessa assim, individual, só pode dar conta do domínio privado. Para que a coisa funcionasse em público, o voto não poderia ser só meu; precisaria ser de todo mundo. Confesso que sonho com um dia em que seremos vulcanos, samurais ou houyhnhnms. Antes desse dia, porém, diante da incredulidade implacável dos dentistas, terei que sacar do bolso o celular com o vídeo que gravei com o anúncio da pane e jurar pelo meu smartphone.

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