Três mentiras que me contaram

por Abilio Godoy

A maior mentira que já me contaram foi que a morte não é a morte. Não é o fim de tudo. Nossa alma vai para o céu, ou reencarna. A gente sabe porque está nos livros. A gente sabe porque, se não for assim, nossa vida não faz sentido. Mas, e se a vida não fizer mesmo sentido? E se esse ser mesquinho que sou eu não importar quase nada para o mundo? E se sentido e importar forem palavras que a gente inventa? E se for a gente que escreve os livros, para esquecer nossa pequenez e finitude? A Xuxa disse outro dia que queria ir para a Terra do Nunca para não ter que envelhecer. Ela também se baseou num livro.

A segunda maior mentira que me contaram é que no final dá tudo certo. Pode confiar, nada acontece por acaso. Se ainda não deu certo, é porque não chegou ao fim. Não se aflija, não pondere, não questione. Trabalhe, reze, ame, goze, que no fim há de dar certo. Mas, e se não der, como não dá para tanta gente? E se não houver justiça maior, divina ou metafísica, ponderando o destino de cada um? Será que todas as dez mil pessoas que sucumbiram no terremoto do Nepal mereciam morrer? Será que todas as 185 pessoas que a PM matou no estado só no primeiro trimestre mereciam morrer? E se justiça e merecer forem palavras que a gente inventa? E se a natureza for aleatória e a sociedade, enviesada? Será que todo mundo que segue as regras e se esforça consegue o que foi prometido? Se é no seu fim que as coisas dão certo, então ficam nas mãos da morte os bens que a gente deveria gozar em vida.

A terceira maior mentira que me contaram mora dentro da palavra amanhã. Amanhã a gente vê isso. Semana que vem damos um jeito. Depois eu passo aí. Qualquer dia a gente se encontra. Mas, e se amanhã for muito tarde? Será que o futuro existe além dos verbos? E se a morte for mesmo a morte e o acaso for soberano? Existe alguma garantia? E se a justiça depender da gente? Será que vai dar tempo? Vale esperar que no final alguém nos salve, que, num milagre, acabe dando tudo certo? Enquanto a gente espera, a sociedade continua enviesada, a natureza continua aleatória. E a felicidade com que a gente sonha fica nas mãos descarnadas do amanhã.

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Um pensamento sobre “Três mentiras que me contaram

  1. Não são verdades nem mentiras, simplesmente não há como saber, portanto, não cabem juízos como “verdadeiro” ou “falso”. Essas coisas extrapolam o alcance de nossa razão. Pelo menos quanto à primeira “mentira”.
    Quanto à segunda, o “dar certo” é muito vago, vai mais da interpretação de cada um. Desgraça para uns, bênção para outros.
    No que acreditamos, só conta na medida em que guia nossas ações, já que, muitas vezes, há um descompasso entre o que cremos e o que fazemos.

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